Economia

Estresse financeiro prolongado afeta memória e envelhecimento cerebral

Imagem mostra notas de real em cima de uma mesa.
Decisões econômicas, inflação e mercado: entenda como os rumos da economia afetam o seu dia a dia. Foto: Pixabay/ Joel Santana

Preocupações persistentes com dinheiro, dívidas e contas podem afetar o cérebro décadas depois. Um estudo da University College London, no Reino Unido, acompanhou 2.759 pessoas nascidas em 1946 e identificou que aquelas expostas a dificuldades financeiras ao longo da vida adulta apresentaram pior desempenho cognitivo na meia-idade e mais sinais de envelhecimento cerebral aos 69 anos. A pesquisa foi publicada na revista Innovation in Aging em julho deste ano.

Os pesquisadores reuniram informações sobre renda e dificuldades financeiras entre a vida adulta e a meia-idade, além de testes de memória e velocidade de processamento aos 53, 63 e 69 anos. Parte dos participantes também passou por exames de ressonância magnética aos 69-71 anos. Cerca de 16% apresentaram baixa renda persistente e 12% relataram dificuldades financeiras persistentes.

Estresse crônico compromete memória e raciocínio

Aos 53 anos, quanto maior a exposição à adversidade financeira, pior foi o desempenho em velocidade de processamento e memória verbal. Nos exames de imagem, a baixa renda persistente esteve associada a maior volume ventricular, um marcador relacionado à saúde cerebral. O estudo também identificou maior vulnerabilidade entre homens, pessoas que cresceram em condições socioeconômicas desfavoráveis e portadores da variante genética APOE-ε4.

Para o neurologista Philipe Cunha, professor de pós-graduação da Afya Educação Médica Curitiba, o mecanismo pode estar relacionado ao estresse mantido por longos períodos. O estresse financeiro crônico eleva hormônios como glicocorticoides e catecolaminas, favorecendo inflamação sistêmica e redução de volume em áreas como córtex pré-frontal, hipocampo e amígdala, estruturas importantes para cognição e regulação emocional.

A preocupação constante com dinheiro também consome recursos mentais que seriam utilizados em outras tarefas. Diogo Dias, COO da GFX e especialista em planejamento financeiro, resume: o estresse financeiro aparece quando o dinheiro deixa de ser apenas uma questão de números e passa a ocupar espaço demais na cabeça.

Organização financeira pode reduzir a pressão

Para Dias, uma das formas de diminuir a preocupação é aumentar a previsibilidade. Quando sabemos quanto entra, quanto sai e quais compromissos teremos pela frente, diminuímos muito o espaço para surpresas. Ele recomenda começar por um diagnóstico simples: quanto entra, quanto sai, para quem se deve e quanto custa cada dívida.

Mesmo com orçamento apertado, Dias defende a criação de uma pequena reserva assim que houver espaço. Mesmo que sobrem apenas R$ 100 ou R$ 200 por mês, já é possível começar. Para ele, constância é mais importante do que esperar por uma grande sobra de dinheiro.

Do ponto de vista neurológico, Cunha destaca que o cuidado não deve se limitar às finanças. Controle da pressão arterial e do colesterol, atividade física regular, alimentação equilibrada, sono adequado, convívio social e estímulo cognitivo estão entre os fatores modificáveis associados à proteção cerebral. A principal mensagem está na duração do problema: não são episódios isolados, mas a persistência do estresse financeiro que se relaciona a pior saúde cerebral décadas depois.

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