Doze anos após a Copa do Mundo de 2014, oito dos 12 estádios que sediaram jogos no Brasil ainda acumulam dívidas de R$ 232 milhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os empréstimos drenam recursos das contas estaduais, enquanto arenas em estados como Amazonas, Ceará, Mato Grosso e Pernambuco seguem dando prejuízo operacional e consumindo verbas públicas que poderiam ser destinadas a saúde e educação. As informações são da Gazeta do Povo.
Dos 12 estádios, 11 tiveram projetos financiados pelo BNDES por meio do programa ProCopa. Apenas três foram quitados: Arena das Dunas (Natal), Mineirão (Belo Horizonte) e Itaquerão (São Paulo). A dívida do estádio paulista, porém, foi repassada para a Caixa. O BNDES informou que as oito operações ativas seguem sem inadimplência, com prazos de quitação até novembro de 2028.
Arena da Amazônia custa R$ 15 milhões por ano ao governo
Erguida com custo final de R$ 757,5 milhões — 51% acima do orçamento inicial de R$ 499,5 milhões —, a Arena da Amazônia, em Manaus, tornou-se símbolo do descompasso entre planejamento e realidade econômica. Administrada pelo governo do Amazonas, a arena tem custo anual de manutenção de R$ 15 milhões. O futebol local não atrai público: em cinco partidas pela Série D neste ano, o Manaus FC acumulou déficit operacional de mais de R$ 64 mil.
A Arena Pantanal, em Cuiabá, teve orçamento inicial de R$ 454,2 milhões, mas consumiu cerca de R$ 570 milhões após aditivos questionados pelo Tribunal de Contas da União (TCU). O custo de manutenção anual é estimado em R$ 4 milhões. A ascensão do Cuiabá para a Série A, em 2021, atenuou a ociosidade do estádio.
Arena de Pernambuco acumula prejuízo de R$ 42,7 milhões
Localizada em São Lourenço da Mata, na região metropolitana do Recife, a Arena de Pernambuco foi concedida em 2010 à Odebrecht por meio de parceria público-privada (PPP), prevendo investimentos de R$ 479 milhões ao longo de 33 anos. Em 2016, o governo rompeu o contrato após a empreiteira ser alvo da Operação Fair Play, da Polícia Federal, por suspeitas de fraude. O estado assumiu o compromisso de pagar parcelas anuais de R$ 19 milhões à empresa ao longo de dez anos, além de arcar com custo de manutenção de R$ 10 milhões anuais. De junho de 2017 a maio deste ano, o prejuízo foi de R$ 42,7 milhões.
O Castelão, em Fortaleza, também começou como PPP, mas o contrato foi rompido em 2018. Sob administração da Secretaria do Esporte do Ceará, o estádio consome entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões por ano em operação e zeladoria.
Mané Garrincha custou R$ 2 bilhões e virou sede de secretarias
O Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, é a arena mais cara do Mundial. Com orçamento inicial de R$ 696 milhões, a obra foi concluída com custos próximos a R$ 2 bilhões, bancados pela estatal Terracap. Após anos de ociosidade e custos de quase R$ 10 milhões em manutenção, o governo do Distrito Federal transferiu secretarias para dentro da arena, elevando despesas com água, eletricidade e segurança. Em 2020, o complexo foi concedido à iniciativa privada por 35 anos. O Banco de Brasília (BRB), estatal do GDF, adquiriu os naming rights por R$ 7,5 milhões em três anos para dar viabilidade à concessionária. O contrato foi cancelado em abril deste ano em meio à crise do banco.
A Arena das Dunas, em Natal, teve custo de R$ 400 milhões e foi concedida à OAS por 20 anos. Com a recuperação judicial da empreiteira, a gestão tornou-se instável. Demonstrações financeiras mostram prejuízos acumulados de R$ 112,5 milhões. Uma auditoria da Controladoria Geral do Estado estimou que o impacto ao erário estadual pode atingir R$ 421 milhões ao final do contrato, em 2031.
Mineirão e Fonte Nova exigem repasses mensais milionários
O Mineirão, em Belo Horizonte, e a Arena Fonte Nova, em Salvador, adotam modelo de PPP com os estados assumindo o papel de fiadores. Em Minas Gerais, o governo arca com contraprestação mensal ao consórcio Minas Arena, com teto original de R$ 3,7 milhões, ao longo de 25 anos. Na Bahia, a Fonte Nova Negócios reportou prejuízo líquido de R$ 15,8 milhões em 2025, 42% acima do apurado em 2024. Um aditivo em 2021 reduziu o valor anual pago pelo estado de R$ 180,9 milhões para R$ 102,3 milhões.
Em Curitiba, o Athletico detém a propriedade da Arena da Baixada, mas a maior parte dos custos da adequação recaiu sobre o governo estadual e a prefeitura. O orçamento original era de R$ 184,6 milhões, mas o custo final fechou em R$ 346,2 milhões. Após disputa judicial encerrada em 2023, ficou decidido que o clube pagaria sua parte à Fomento Paraná em parcelas anuais ao longo de 15 anos. A previsão é que a dívida seja liquidada apenas em 2038.
O Maracanã, no Rio de Janeiro, está concedido desde 2024 à SPE Fla-Flu Serviços, formada por Flamengo (65%) e Fluminense (35%). O compromisso estabelece investimentos de R$ 393 milhões e pagamento de outorga anual de R$ 20 milhões ao governo estadual. A Neo Química Arena, em São Paulo, mantém dívida entre R$ 650 milhões e R$ 700 milhões com a Caixa, que assumiu o financiamento originalmente concedido pelo BNDES.
