O ingresso de recursos externos na Bolsa já ultrapassa R$ 21,5 bilhões neste ano – o melhor acumulado anual da história da Bolsa – e deve continuar crescendo, podendo alcançar até R$ 27 bilhões, segundo avaliação de profissionais consultados pelo Broadcast. O forte fluxo de recursos para países emergentes, os juros em alta no Brasil e a perspectiva de mudança no cenário político explicam o movimento.

Em setembro, até o dia 24, o saldo de capital externo na Bolsa já soma R$ 3,965 bilhões, o que deve confirmar o mês como o segundo melhor do ano até agora – só perdendo para maio, quando o fluxo foi inflado pela oferta da Oi, em meio ao processo de fusão com a Portugal Telecom. No acumulado do ano, o ingresso totaliza R$ 21,594 bilhões, montante maior do que o visto durante todo o ano passado, de quase R$ 12 bilhões e acima de 2009, que era, até o início de setembro, o melhor ano da história até agora, com R$ 20,596 bilhões.

“O ano de 2014 está surpreendendo todas as expectativas”, destaca o diretor da Citi Corretora, Roberto Rocha. Para o profissional, se mantido esse ritmo, o fluxo de capital externo na Bolsa pode chegar facilmente aos R$ 27 bilhões em 2014, recorde histórico.

O crescente ingresso de capital estrangeiro tem sido a tônica do mercado neste ano, inclusive nas posições de índice futuro, destaca um estrategista de uma asset. Para ele, dois eventos explicam isso: eleições e, principalmente, fluxo de recursos para emergentes. Esse fluxo se fortaleceu a partir do final do primeiro trimestre, com a saída de recursos de Rússia após o conflito de Ucrânia. “Como o mercado brasileiro é um dos maiores e mais líquidos, acabou se beneficiando bastante”, avalia esse profissional.

Com taxas reais mais baixas nos Estados Unidos e taxas negativas na Europa criou-se um ambiente de grande liquidez global. “O capital estrangeiro está a procura de yield, o que justifica a migração de países desenvolvidos para emergentes, que tem taxas mais interessantes”, avalia o estrategista da Guide Investimentos, Luis Gustavo Pereira.

Rocha, do Citi, lembra que após chegar ao piso em março, com o Ibovespa batendo os 45 mil pontos, a Bolsa ficou barata e acabou atraindo muitos estrangeiros. “Lembro de ouvir de clientes na época que havia um desconto muito grande no mercado brasileiro em relação a seus pares”, comenta. Rocha, detalha ainda que houve inicialmente uma entrada de estrangeiros na renda fixa por causa dos juros e certa estabilidade do dólar, que acabou extrapolando para a Bolsa.

A oferta de ações da Oi, destaca Pereira, também contribuiu para elevar o montante de capital externo na Bolsa neste ano. A companhia captou R$ 8,25 bilhões no mercado, sendo R$ 2 bilhões de um fundo administrado pelo BTG Pactual. A oferta chegou a R$ 13,96 bilhões considerando os ativos de R$ 5,7 bilhões da Portugal Telecom (PT). Segundo fontes ouvidas pelo Broadcast na ocasião, cerca de 80% dos recursos vindos do mercado foram de estrangeiros, especialmente de fundos americanos e europeus.

Além do cenário global e das altas taxas de juros brasileiras, a forte entrada de capital externo na Bolsa também foi influenciada pela perspectiva de mudança no âmbito político devido às eleições presidenciais. “O estrangeiro mostrou mais apetite para apostar em alguma mudança potencial de governo”, lembra o estrategista da asset.

Para James Gulbrandsen, sócio da NCH Capital, gestora especializa em mercados emergentes, o investidor estrangeiro está se sentindo muito mais confortável com o resultado da eleição, porque todos os candidatos estão falando em mudanças. “Vemos essa disposição, principalmente, de investidores globais de fundos emergentes, que nos últimos dois anos estavam muito underweight em Brasil”, avalia.

O profissional confessa estar empolgado com a perspectiva de crescimento para a Bolsa brasileira em 2015. “O próximo ano pode ser um dos melhores para a Bolsa”, avalia. Nesse sentido, considera que empresas de pequeno e médio porte (mid e small caps) devem ser as mais beneficiadas, uma vez que as blue chips já anteciparam parte dessa expectativa.

A expectativa de oferta de novas ações deve contribuir para a melhora do fluxo no próximo ano, mas também a previsão de retomada da economia a partir do segundo trimestre do ano, avalia Gulbrandsen. Um dos setores que deve ser beneficiado na Bolsa, para ele, é o ligado ao consumo doméstico. “Ajustes esperados pelo novo governo (mesmo que seja mantido o atual) devem impactar a economia no curto prazo e devemos ver a partir de maio ou junho uma melhora na economia”, avalia.