O Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba pretende ingressar com uma ação civil pública, assinada pelos trabalhadores da Renault, pedindo a responsabilização do governador Jaime Lerner por omissão no planejamento estratégico da montadora. Nesta semana, a Renault abriu um PDV (Programa de Demissão Voluntária) para 140 funcionários. Informações extra-oficiais dão conta de que mais 250 a 300 empregados da área administrativa serão dispensados.
O governo do Paraná tem hoje participação de 1,3% das ações da empresa – quando o protocolo foi assinado, o percentual era de 40%. O ingresso da ação será decidido hoje, em assembléia geral marcada para as 5h15, na frente da fábrica da Renault. Na argumentação da ação, os metalúrgicos vão questionar os benefícios concedidos pelo governo para a instalação da montadora no Estado. Entre eles, a obrigatoriedade da Copel (Companhia Paranaense de Energia) praticar tarifa 25% menor que a normal – que consta da cláusula segunda do Anexo VIII do protocolo de acordo assinado entre o governo do Paraná e Renault em março de 96. “Nos nossos cálculos, só a economia com energia chega a R$ 125 mil por mês, suficiente para manter 90 trabalhadores com todos os encargos sociais”, destacou o sindicalista Paulo Pissinini.
Alternativas
Em reunião com a direção da empresa, na tarde de ontem, os sindicalistas apontaram alternativas para evitar o corte de pessoal, mas não surgiram novas propostas por parte da empresa. “Se houver vontade política, dá para segurar as 140 demissões com redução da jornada de 42 para 40 horas, utilização do banco de horas e aumento da nacionalização das peças”, sustenta Núncio Mannala, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos. “Falta interesse em investir em produto novo. Tanto que a Renault está fazendo o Clio e o Scénic também no México. Nossa preocupação maior é com o fechamento da fábrica de veículos de passeio”, afirma Mannala.
O Sindicato já se posicionou contra o PDV, orientando os funcionários a não preencher a adesão. Até agora, segundo os metalúrgicos, apenas cinco funcionários procuraram informações sobre o PDV no setor de Recursos Humanos da montadora. Na reunião de ontem com os sindicalistas, a direção da Renault não confirmou as 250 demissões na administração. “Porém frente aos comentários dos negociadores, deu a entender isso. Eles disseram que nos EUA, para cada dez trabalhadores na produção, existe um na administração. Na Renault, há 1.400 na linha de montagem e 1.480 na administração”, relata Pissinini. “A empresa não abre PDV para os mensalistas (do setor administrativo) porque eles ganham muito”, emenda. Enquanto a média salarial dos trabalhadores da fábrica é de R$ 691, nos escritórios gira em torno de R$ 1.800.
O Sindicato anunciou ainda que vai protocolar hoje na Delegacia Regional do Trabalho o pedido de uma reunião com representantes da Renault, sindicato e governo do Estado, para que fique registrado o compromisso da empresa de não fechar a planta. “A fábrica da Renault pode ser um grande gerador de empregos desde que haja uma política estratégica do governo estadual junto com a política necessária do governo federal”, opina Mannala, acrescentando que “não acho nenhuma cláusula (no protocolo) em defesa da nacionalização e responsabilidade social da empresa”.
Parada
A greve iniciada ontem pelos noventa funcionários da Vallourec do Brasil, fornecedora de pneus e eixos da Renault, deixou a montadora sem produção desde as 9h30. A Vallourec anunciou ontem mais dezesseis demissões além das sete já comunicadas no início da semana, como reflexo da diminuição da produção da Renault.
Estado reduziu sua participação
A participação acionária do governo do Paraná no capital da Renault, atualmente de 1,3% das ações, cairá para 1% assim que a montadora francesa integralizar a abertura de capital subscrita em assembléia geral extraordinária realizada na última semana. Isso porque as ações do governo paranaense na empresa valem R$ 35 milhões, e os acionistas decidiram elevar o capital para R$ 3,5 bilhões.
Pelo protocolo de acordo assinado em março de 1996, o Estado se comprometeu a subscrever 40% do capital da empresa – representado pelo FDE (Fundo de Desenvolvimento Estadual) através de ações preferenciais sem direito a voto. Quando firmou o protocolo, a Renault tinha 60% do capital do empreendimento, por meio de ações ordinárias com direito a voto. O acordo previa que o governo paranaense aumentaria sua fatia na sociedade nessa proporção a cada aumento de capital da empresa.
Mas em abril de 98, após negociações com a empresa, o governo fechou um acordo congelando sua participação no negócio. Na época, o Estado alegou que, devido ao ajuste fiscal acertado com o governo federal, havia outras prioridades de investimento. Desde então, a Renault fez novas aberturas de capital. Como o governo do Paraná não realizou novas integralizações, a participação acionária diminuiu progressivamente.
Sem voz
Como sócio da montadora, o governo do Paraná tinha assento no Conselho de Administração da Empresa (CAE) da Renault. Inicialmente, o representante do Estado era Miguel Salomão, quando ocupou a Secretaria Estadual da Fazenda. Seu sucessor na pasta, Giovani Gionédis, passou a integrar o CAE da Renault. Porém desde que ele deixou o secretariado, em novembro de 2000, o governo está sem representante no conselho. Ninguém foi nomeado para substituir Gionédis. No governo do Estado, ninguém soube explicar porque a cadeira continua vaga. A Renault não quis fornecer detalhes sobre o assunto. (OP)


