O trigo brasileiro ainda está
muito na dependência do clima.

Brasília – Responsável indireta pelo sucesso da pauta de exportações agrícolas do Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) se prepara para tropicalizar o trigo. Ou seja, fazer com que o produto seja plantado em clima tropical e, dependendo da localidade, até mesmo com pouca chuva. A idéia é tirar o país da condição de importador de 45% do que consome e, com isso, evitar as oscilações das cotações internacionais do trigo – que acabam atingindo os preços de pães, massas e biscoitos nas padarias e supermercados.

Segundo o presidente da Embrapa, Clayton Campanhola, foi assim que os pesquisadores da empresa agiram com a soja, produto originário de países de clima temperado introduzido no Brasil na década de 50, mas que só se expandiu em todas as regiões a partir dos anos 80. Hoje o Brasil é o primeiro exportador mundial de soja e o segundo produtor.

“Queremos fazer a mesma coisa com o trigo, que é uma cultura de inverno. Nossa meta é tornar o país auto-suficiente. Para isso, é preciso que o trigo nacional seja tão competitivo em preço como o importado”, afirma Campanhola.

A Embrapa tem ações de melhoramento genético dirigidas às três regiões tritícolas brasileiras (Sul, Centro-Sul e Cerrado). Campanhola destaca que, para a melhora da qualidade, estão sendo criadas cultivares de trigo Pão, indicadas para produtoras de farinha para panificação e cultivares de trigo Brando, para a fabricação de massas frescas, confeitaria, bolos e biscoitos.

“Ainda não há prazo, mas estamos trabalhando com mais esse desafio”, diz o presidente da empresa. A Embrapa também está testando as sementes, fazendo manipulação genética, para tornar o trigo resistente.

A Embrapa já produziu 44 variedades de soja. Do total plantado no país, metade provém de sementes produzidas pela empresa, que recebe royalties pelo trabalho repassado a produtores. Também investe em hortaliças e fruticultura.

“Pelo menos 90% das mangas exportadas vêm do Vale do São Francisco, que são variedades produzidas pela Embrapa. Também produzimos novas variedades de abacaxi, capim, acerola, girassol, feijão e até algodão colorido, nas cores palha e verde”, diz Campanhola.

As variedades são lançadas, registradas no Serviço Nacional de Proteção de Cultivares e, ao serem repassadas, a Embrapa recebe royalties. Só no ano passado, a empresa conseguiu arrecadar R$ 9 milhões.

Atualmente, os pesquisadores da Embrapa estão às voltas com alguns desafios inerentes à globalização. Campanhola aponta, em primeiro lugar, a segmentação dos mercados. Cada vez mais, os consumidores querem produtos com características específicas:

“São produtos que têm mais vitaminas, ou com determinadas características visuais, ou com menos calorias. Ao contrário do que se imaginava, a globalização teve como conseqüência a segmentação, e isso é um grande desafio para a pesquisa”.

A segurança biológica é outro desafio apontado pelo presidente da Embrapa. Segundo Campanhola, o pânico frente ao bioterrorismo, especialmente da parte dos Estados Unidos, está levando os países a serem mais exigentes no controle das importações de alimentos. Ele afirma que os países exportadores devem se preparar para atender a exigências previstas nos certificados de qualidade vegetal e animal.

O biodiesel é outra forma de combustível a ser buscada com maior freqüência, ressalta Campanhola, para que a matriz energética seja diversificada. O caminho seria usar como fontes produtos vegetais que contêm óleo, como é o caso da mamona, óleo de dendê, soja, amendoim e girassol.

“Sem contar o etanol, que será cada vez mais importante em nossa pauta de exportações”, acrescenta.

Funcionário da Embrapa há 20 anos, Campanhola passou por momentos polêmicos na empresa, vinculada ao Ministério da Agricultura. Ele diz não entender os motivos pelos quais ele e a atual diretoria foram acusados de politizar a estatal, deixando de lado a transferência tecnológica como forma de atrair divisas para o país, para que seja dado foco exclusivo à agricultura familiar.

“Continuamos com a mesma linha de atuação. Temos mais de 2 mil pesquisadores e jamais iríamos passar por cima deles”, assegura.

A Embrapa, garante Campanhola, atende de forma indiscriminada a pequenos, médios e grandes produtores:

“É claro que sempre vamos destacar a inclusão social.”