Às vésperas de sair de férias, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, concedeu ontem uma entrevista coletiva e afirmou que todas as condições já estão dadas para que a economia tenha um crescimento "forte" em 2006, em um nível semelhante ao de 2004, quando o País se expandiu 4 9%. É uma estimativa bem mais otimista que a do mercado financeiro, que espera um crescimento de 3,5% para o ano que vem segundo a pesquisa Focus do Banco Central.
Palocci fez ainda uma defesa veemente das políticas fiscal e monetária do governo. Para ele, a manutenção de juros altos como instrumento de controle da inflação tem um custo, mas prepara o País para um crescimento de longo prazo. Ele disse discordar "frontalmente" dos críticos da política fiscal e reafirmou que, a despeito dos debates travados na sociedade sobre a valorização do real, o câmbio continuará flutuando.
Palocci garantiu que não há um clima de confronto dentro do governo envolvendo estes temas e afirmou que as divergências com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, sobre o tamanho da economia que o País deve fazer, não "trincaram" a sua relação com Dilma. Pela primeira vez, ele admitiu que o superávit primário do setor público (economia para pagar juros) será maior que a meta de 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB).
Palocci defendeu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Fará bem para o Brasil um período mais prolongado do presidente Lula à frente do País", disse. Palocci garantiu, entretanto, que não deixará o Ministério da Fazenda para concorrer a um cargo eletivo em 2006. "Tenho o compromisso com o presidente Lula de ajudá-lo até o final do mandato", afirmou.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista coletiva:
Crescimento em 2006
"Tenho segurança que 2006 será um ano de forte crescimento. E nós teremos crescimento seguidos por muitos anos à frente. Por que eu acredito num crescimento vigoroso em 2006? Porque as condições estão dadas: baixa inflação, condições de risco cada vez melhores, situação das contas externas como nunca tivemos, renda e vendas crescendo, disponibilidade de crédito e empresas se financiando com seus próprios instrumentos. O cenário que está se abrindo para 2006 está muito próximo do cenário aberto em 2003 para 2004. Vamos ter um resultado em torno do que tivemos em 2004. O importante é que a evolução do País deixou de ser de idas e vindas."
Economia em 2005
"Este ano nós tivemos avanços importantes no quadro econômico brasileiro. Nós avançamos muito no trabalho de melhoria no perfil e no tamanho de nossas dívidas tanto interna como externa. Em particular, o quadro das contas externas nunca esteve tão bom. Nós eliminamos, por exemplo, os C-Bonds, que eram títulos de renegociação de dívida brasileira. Estamos pré-pagando o FMI e também já acertamos com o Clube de Paris. E fizemos neste ano, pela primeira vez, o lançamento de títulos em reais no mercado internacional. Este conjunto de medidas, junto com a melhoria de perfil da dívida, tem feito o risco Brasil convergir para 300 pontos. Portanto, uma evolução que vai se consolidando em indicadores que o Brasil não atingia há muito tempo ou nunca atingiu."
Alta no juro
"Depois de um período de crescimento importante no ano passado, a inflação deu mostras de pressão, o Banco Central agiu preventivamente e teve sucesso em trazer a inflação de novo para as metas. Eu penso que o povo brasileiro já consolidou o controle da inflação como uma conquista e não há espaço para que nós possamos ter qualquer negligência. Então foi importante o esforço feito pela política monetária neste ano de trazer de novo a inflação para as metas. Evidentemente isso teve custos durante este ano, mas prepara o País de forma definitiva para o crescimento de longo prazo. O poder aquisitivo melhora muito também quando a inflação é controlada. Os trabalhadores sabem disso."
Política fiscal
"Com todo o respeito, mas erram os críticos no plano fiscal. Nos últimos 15 anos, sempre que o Brasil deixou de fazer esforço fiscal, a dívida respondeu de maneira muito violenta e piorou completamente o quadro de estabilidade e crescimento do País. Ao oposto, quando o Brasil fez procedimento fiscal mais equilibrado, a dívida caiu, como está caindo neste momento e devolveu resultados econômicos extremamente importantes. Respeito os críticos da questão fiscal mas discordo frontalmente disso. Nós estamos muito seguros de que o esforço fiscal forte e equilibrado faz bem ao Brasil."
Superávit primário
"É possível que ele fique acima dos 4,25% do PIB, mas eu penso que o quadro de planejamento do superávit foi feito adequadamente. Não vou brigar com os Estados e municípios porque eles estão economizando mais, vou parabenizá-los. Desculpem, mas eu tenho um pensamento fiscal um pouco diferente dos meus críticos. O País precisa de um esforço fiscal de longo prazo. Vai fazer bem ao Brasil. Acho que 4,25% do PIB é um nível que tem se mostrado suficiente para provocar uma queda na relação dívida/PIB."
Câmbio
"Nós aproveitamos a oportunidade dada pelo mercado, que se refletiu em taxas de câmbio apreciadas, e fizemos um enorme trabalho de melhoria das nossas reservas e da nossa dívida. Qual o resultado disso? Uma melhora substancial no perfil da nossa dívida, das nossas reservas, que devem fechar o ano em US$ 55 bilhões. E para as empresas foi o ano de maior exportação do Brasil, o maior saldo comercial da nossa história. Esse é o resultado. Nem todos os setores observaram o mesmo ganho. O que temos de observar é que o resultado global desse movimento todo é de um saldo de balança comercial de US$ 44 bilhões, com exportações de US$ 115 bilhões, são os melhores resultados da história do Brasil. O que nós podemos fazer para evitar perdas nos segmentos que perdem? Nós estamos mexendo nestas medidas microeconômicas para melhorar o ambiente exportador. Agora isso não pode nos levar a escolher taxa de câmbio."
Reeleição de Lula
"Eu faço muita fé e trabalharei muito para que o presidente Lula seja candidato, se decida como candidato e seja reeleito. Os dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio) mostram que o presidente Lula trouxe ao País a consolidação não apenas do processo de estabilidade e crescimento, mas de uma coisa muito especial, que o Brasil nem sempre consegue, que é crescer com justiça social para além do discurso. Mudança efetiva na distribuição de renda. Essa é uma marca importante da ação do presidente Lula. Essa é a alma do atual governo. Penso que fará bem ao Brasil um período mais prolongado do presidente Lula."
Palocci candidato
"O cargo de ministro da Fazenda não é compatível com candidaturas. No dia em que eu desejar ser candidato, não vou esperar prazos eleitorais. Direi ao presidente Lula que devo sair do ministério para ser candidato. Não é adequado que o ministro da Fazenda, que lida com o Orçamento Federal, faça seu trabalho pensando numa candidatura. Não é ético, não é adequado. Não que não tenha direito de sê-lo. Mas no dia que eu tiver essa vontade, tenho duas opções: sair imediatamente ou tomar um banho gelado. Eu tenho tomado banhos gelados quando isso acontece. Não tenho nenhuma idéia, nenhum desejo de ser candidato."
Debate econômico
"Eu trabalho é para que a política não mude. Se o Brasil perder a seriedade na questão fiscal, negligenciar o controle da inflação, isso custará muito caro. Mas o que eu vejo hoje é que não só o presidente Lula, mas as forças políticas no Brasil – e eu não diria que há exceções nisso – têm muito clara a consciência de controlar inflação, ter responsabilidade fiscal, ordenar o Orçamento e permitir ao Brasil crescer com estabilidade. Acho que o Brasil cobra de seus políticos, lideranças, uma postura nesse sentido. O Brasil é o País que mais experimentou políticas econômicas criativas. E nós sabemos tudo o que dá errado. Porque nós fizemos tudo que dá errado."
Reunião ministerial
"Acho que existiu uma diferença grande entre a reunião que ocorreu e a expressão dela. Muitas vezes as pessoas expressam a reunião por aquilo que elas gostariam que tivesse sido. Mas a reunião ministerial fez um debate muito elevado sobre os programas sociais, sobre a infra-estrutura do País, sobre a economia. Foi um debate muito elevado sobre todos esses pontos. E não há, de forma alguma, um ambiente de crítica a câmbio e juros ou ao processo fiscal. Há, sim, um olhar sobre essas questões, um debate público sobre essas questões e o Brasil vai observando que essas questões evoluem de uma maneira que traz resultados equilibrados. Sobre o diálogo às vezes um pouco mais acirrado que tive com membros do governo e fora dele, não é assunto para às vésperas de Natal. O meu relacionamento no governo está muito positivo com todos os ministros."
CPI dos Bingos
"Eu tive um bom diálogo com todos os senadores e me dispus a debater todos os pontos. Não há nenhum mal-estar em relação a isso. Não há nenhum confronto e a minha disposição é sempre a mesma: a de respeitar os procedimentos do Congresso."
Efeito econômico da crise política
"A confiança do consumidor estava num nível razoável e no processo da crise política ela caiu fortemente. Essa é a má notícia. Qual é a boa notícia? Quatro ou 5 meses depois, a confiança se inverteu e voltou a crescer. O que eu percebo é que as pessoas no começo da crise tiveram uma forte percepção que poderiam ter problemas na condução do crescimento do País. Então a crise política teve um impacto num determinado período, mas esse impacto foi revertido pela própria solidez da economia e por uma atitude muito responsável pelos políticos brasileiros."
Controle de gastos
"A idéia de reduzir gastos correntes primários já está em prática na verdade. Há um trabalho da Previdência que já produz resultados. Um segundo aspecto de controle de gasto é a limitação do gasto corrente na LDO para os próximos anos. O objetivo dessa limitação é valorizar o investimento e impedir que o gasto corrente cresça de forma desordenada. Esse não é um projeto para amanhã nem uma invenção da equipe econômica. É uma construção que deve ser feita pacientemente no diálogo. O ano eleitoral é importante para debater essa questão."
Carga tributária
"Desde o ano passado, nós só fazemos medidas de redução de tributos. O mais forte motivo de crescimento das arrecadação está em dois impostos, IRPJ e CSLL, porque o lucro das empresas está crescendo. Isso reflete no aumento da arrecadação sem aumento da alíquota, o que nos já começamos a devolver a sociedade."
Salário mínimo
"Olhando os gráficos do salário mínimo hoje, pelo aumento dado e o controle da inflação, ele nunca esteve num nível tão elevado. O salário que comprava em 2002 1,2 cesta básica compra 1,7 hoje. Nós vamos discutir esse assunto com o presidente. A equipe econômica vai fornecer os elementos relativos ao equilíbrio das contas em geral para poder tomar a melhor decisão possível. Na questão do mínimo tem duas questões que nos preocupam: os efeitos da conta da Previdência e das prefeituras."
Formiguinhas e cigarras
"Jamais vou rejeitar ou desconsiderar críticas. Elas fazem parte do cenário de construção de um País que é uma grande democracia como o Brasil. O mais importante é não perder a tranqüilidade do trabalho que estamos realizando e a perseverança desse trabalho. É um trabalho de formiguinha, mas muito importante. Esse trabalho perseverante é o que faz a estabilidade. E, no cenário do bosque enquanto as formiguinhas trabalham muitas cigarras cantam. Isso faz parte do cenário. Jamais você vai me ver falar contra as cigarras que estão cantando. Isso faz parte do cenário e a música faz muito bem ao ambiente. É assim que se constrói uma grande democracia. Todos os ministros são formiguinhas. As cigarras são os comentaristas políticos (rindo)."


