O crescimento recorde do déficit em conta corrente no mês de março e no primeiro trimestre reacendeu os temores do Ministério da Fazenda sobre o ritmo de deterioração das contas externas e deve intensificar o debate interno do governo sobre a taxa de câmbio e a vulnerabilidade externa do País. No governo, esse tema passou a figurar, obrigatoriamente, na agenda econômica, embora, mais uma vez, Banco Central e Ministério da Fazenda tenham posições distintas para avaliar o impacto da desvalorização do dólar nas contas que registram as transações do Brasil com o exterior.

O ministro Guido Mantega e sua equipe definem que a valorização cambial estimulada pela alta dos juros está provocando essa escalada do déficit em conta corrente. Nas análises técnicas, o temor é que essa deterioração, que se intensificou neste início de ano, terá repercussões mais sérias a partir de 2009, comprometendo o crescimento sustentável da economia brasileira. O Banco Central mantém o diagnóstico de que o déficit em conta corrente não representa uma problema porque será totalmente financiado pelo crescente fluxo de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED). Além disso, o BC avalia que o câmbio flutuante, no longo prazo, corrigirá eventuais distorções no curto prazo.

Além disso, o BC reconhece que o déficit externo – que reflete, em grande medida, a alta nas importações – tem papel importante em atender à forte demanda interna, contendo pressões inflacionárias. Como vê o déficit em conta corrente, em grande parte, como conseqüência da atividade econômica interna acelerada, o BC trabalha com um cenário de que a alta nos juros e seu efeito de moderar o crescimento vão, no futuro, conter naturalmente o ritmo de crescimento do saldo negativo.

O cenário básico do ministério da Fazenda para o déficit em conta corrente em 2008 era de US$ 12 bilhões a US$ 15 bilhões, mas técnicos já admitiam internamente que o rombo ficaria razoavelmente acima disso. Com os dados desta segunda-feira (28), essa percepção se consolida e os números deverão ser revisados. No BC, a projeção oficial ainda é US$ 12 bilhões, mas, diante dos US$ 10 76 bilhões registrados no primeiro trimestre, o próprio chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, admitiu revisar a estimativa.

O futuro das contas externas e seu efeito sobre a economia brasileira já é o grande foco de divergência entre BC e Fazenda, ainda que, depois da crise pré-Copom, a divergência tenha sido apaziguada pela presidente Lula.