O colapso do Ueno Bank, maior banco digital do Paraguai, gerou incertezas para empresas e investidores brasileiros que operam no país vizinho. A instituição atendia 3 milhões de clientes e administrava US$ 4,2 bilhões em ativos, captando quase 9% dos depósitos bancários paraguaios. O Banco Central do Paraguai encerrou as operações após constatar o colapso no caixa, bloqueando os depósitos de milhões de pessoas. As informações são da Gazeta do Povo.
A quebra ocorreu em meio à renúncia do presidente Santiago Peña, que foi sócio da Ueno Holding até março de 2025. O banco administrava aproximadamente US$ 850 milhões de entidades públicas, incluindo recursos da previdência e da saúde. A participação presidencial na instituição levantou suspeitas de conflito de interesses.
O Brasil mantém US$ 2,2 bilhões em investimento direto no Paraguai, respondendo por 15% do investimento estrangeiro no país. Embora o mercado tenha precificado uma repercussão baixa, especialistas alertam para possíveis impactos nas operações comerciais.
O especialista em comércio exterior Jackson Campos avalia que o impacto pode surgir na forma de pedidos menores, exigência de pagamento antecipado e pressão financeira que exigiria capital de giro maior das empresas brasileiras. “A mudança de presidente não extingue automaticamente a legislação, embora a incerteza possa adiar novos investimentos. O Brasil deve preservar o diálogo e a continuidade comercial, enquanto as responsabilidades são apuradas pelas instituições paraguaias”, afirma.
A diretora comercial da B&T XP, Roberta Folgueral, destaca que os bancos são essenciais na cadeia produtiva por meio das transferências de recursos, pagamento de salários, fornecedores e tributos. “Uma empresa pode ter uma operação industrial saudável, contratos de exportação em andamento e demanda por seus produtos, mas enfrentar dificuldades se não conseguir acessar os recursos necessários para cumprir seus compromissos financeiros”, completa.
A especialista aponta que a dúvida dos empresários brasileiros deve girar em torno das incertezas quanto à sobrevivência do banco do qual dependem para movimentar o caixa. A pergunta passa a ser: “como manteriam a operação funcionando se a instituição financeira da qual dependem deixasse de operar?”.
Regime de Maquila enfrenta incertezas operacionais
Especialistas destacam o impacto no regime de Maquila, mecanismo que permite empresas brasileiras abrirem unidades no Paraguai para produzir com mão de obra local. Na prática, uma companhia pode levar temporariamente matérias-primas e ferramentas para o país, produzir e depois exportar o produto pronto.
Em 2025, uma atualização na Maquila modernizou o sistema, passando a explicitar a possibilidade de inclusão da exportação de serviços, inclusive digitais, fixando regras de investimento e capacitação e o prazo de 20 anos para as concessões, com possibilidade de renovação.
Roberta Folgueral lembra que todo esse sistema depende de bancos funcionando adequadamente, sobretudo diante dos incentivos fiscais oferecidos. Agora, avalia, “competitividade e segurança operacional precisam caminhar juntas”.
Garantias e recomendações para investidores
O Paraguai possui o Fundo de Garantia de Depósitos (FGD), equivalente ao FGC brasileiro. A cobertura é de investimentos de até 228,3 milhões de guaranis, cerca de R$ 200 mil por pessoa física ou jurídica, similar ao limite de R$ 250 mil no Brasil.
A liberação das garantias, porém, não é automática. A primeira etapa cobrirá investimentos equivalentes a cerca de R$ 9 mil, e não contemplará quem só tinha conta no Ueno Bank. O economista e diretor da VLGI Asset Matheus Portela recomenda que os brasileiros com valores no banco guardem os extratos e comprovantes para aguardar o lançamento do canal oficial do BCP para o ressarcimento.
Portela vê um impacto maior na imagem, uma vez que a atratividade construída nos últimos anos pode dar lugar ao temor diante de uma instituição colapsada com “muito dinheiro público concentrado e supervisão que agiu tarde”. “Se o país responder bem, com pagamento rápido aos correntistas, responsabilização e fiscalização mais forte, o episódio fica como um caso isolado. Se não, a promessa paraguaia perde força justamente com quem foi atraído por ela”, pontua.
Para André Matos, CEO da MA7 Capital, o investidor brasileiro no Paraguai deve avaliar o banco e a natureza dos investimentos, observando o limite da garantia. O risco de problemas em outros bancos, em sua visão, é menor, mas existe, porque a instabilidade pode derrubar o valor do Guarani e tornar o crédito mais caro. Retirar todo o saldo de outros bancos do país também não seria estratégico: Matos lembra que esta operação pode gerar custos desnecessários com câmbio e transferências. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, recomenda diversificação da carteira.
