Londres (AE) – Após 48 horas de maior de estresse, e uma maior serenidade nos mercados globais, analistas e investidores estrangeiros expostos ao Brasil passaram a se concentrar na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da próxima semana. A volatilidade que assolou o Brasil e outros emergentes até quarta-feira teve o efeito de consolidar um aposta majoritária num corte de 50 pontos porcentuais na Selic na próxima quarta feira, que hoje está em 15,75% ao ano. Mas, apesar desse consenso, a decisão gera grande expectativa por causa dos vários fatores novos que entraram no radar do Banco Central (BC), principalmente a desvalorização do real. Ela fez com que um corte ?azarão?, de apenas 25 pontos, passasse a ser cogitado.

Michael Gavin, analista do UBS, não crê que exista possibilidade de um corte inferior a 50 pontos. Ele afirma que os fundamentos macroeconômicos poderiam justificar um corte de 75 pontos, levando a Selic em 15%. ?Um corte de 50 pontos também seria justificado, pois os 25 pontos extras não são absolutamente necessários para assegurar os objetivos do BC e isso poderia fazer sentido de sinalizar para o mercado que o ciclo de relaxamento monetário está se aproximando de um final temporário?, disse Gavin.

O analista observa que um desejo de evitar surpreender o mercado poderá ser uma motivação adicional para o BC limitar o corte a 50 pontos. ?Ficaremos surpresos, entretanto, caso ocorra uma redução menor do que 50 pontos, como alguns têm especulado.?

Segundo Gavin, a menos que o real se desvalorize substancialmente do seu atual nível, os recentes movimentos no mercado ?deveriam e terão um impacto menor? sobre a decisão do Copom. ?O câmbio mais fraco representa uma ameaça muito modesta para a meta inflacionária neste ano ou no próximo, e o Copom estará ansioso para evitar que condições de mercados adversas afetem suas decisões para os juros.?

Além disso, acrescentou o analista, a entrada da recente volatilidade no rol de considerações do Copom, mesmo com um peso mínimo, reforça o argumento pela manutenção do relaxamento monetário. ?O epicentro do deslocamento é o mercado de dívida pública, não o acionário ou o cambial ou o de dívida externa?, disse Gavin. ?O governo certamente entende isso, como mostra sua disposição em recomprar parte da dívida que o mercado estava rejeitando durante o pico do pânico.? Por isso, segundo o analista, uma política monetária ?conservadora? poderia ser contraproducente ao aparentemente validar o atual sentimento negativo no mercado doméstico.

Os analistas do Royal Bank of Scotland (RBS) afirmam que um corte inferior a 50 pontos enviaria um sinal muito negativo e poderia gerar mais perdas no mercado da dívida pública. ?A inflação e o crescimento oferecem espaço para o relaxamento monetário, embora a fraqueza da moeda vai manter o BC cauteloso?, afirmaram.

Segundo eles, o câmbio é o principal risco de curto prazo para a continuidade do ciclo de relaxamento monetário. ?Mas o risco cambial tem menos possibilidade de persistir diante da forte conta corrente e as posições dos fluxos de investimentos diretos estrangeiros?, afirmaram. ?A erosão da âncora fiscal é um risco mais de médio prazo.? Segundo os analistas do RBS, esses dois fatores vão manter o BC mais cauteloso. ?Isso poderá criar mais tensão entre o BC e o Ministério da Fazenda no futuro?, afirmaram.

Nesse contexto, eles descartam uma pausa na queda dos juros em junho, julho ou agosto, mas acreditam que aumentou a possibilidade de cortes menores, de 25 pontos, nas duas últimas reuniões do Copom neste ano. O economista sênior do Dresdner Kleinwort Wasserstein, Nuno Camara, reduziu hoje sua previsão para o corte da Selic neste mês de 75 pontos-base para 50 pb. Ele também alterou sua aposta para a taxa no final deste ano de 13% para 13,5%.

?A inflação corrente, o núcleo inflacionário e as expectativas continuam sob controle e isso não deverá ser alterado no futuro próximo diante do crescente investimento?, disse Camara. ?Entretanto, diante do ambiente externo mais adverso, as defasagens do impacto da política monetária e as preocupações fiscais, o Banco Central deverá se pautar pelo lado da cautela.?