Os Correios registraram prejuízo de R$ 3,16 bilhões no primeiro trimestre de 2026, quase o dobro do resultado negativo observado no mesmo período do ano anterior. O resultado coloca em xeque o plano de recuperação da estatal, sustentado por um empréstimo de R$ 12 bilhões com garantia da União, que previa recolocar a empresa no azul até 2027. Mantido esse ritmo, a estatal poderá superar o prejuízo recorde de R$ 8,5 bilhões registrado em 2025. As informações são da Gazeta do Povo.
Mesmo após medidas de reestruturação que incluíram programas de demissão voluntária, fechamento de unidades e venda de ativos, os números indicam que as ações adotadas até agora aliviam a pressão financeira de curto prazo, mas não enfrentam problemas estruturais. O governo estuda injetar mais recursos para financiar a continuidade da reestruturação.
A deterioração das contas dos Correios acelerou nos últimos anos. Depois de registrar lucro de R$ 3,7 bilhões em 2021, a estatal passou a acumular sucessivos resultados negativos. O prejuízo foi de R$ 768 milhões em 2022 e de R$ 597 milhões em 2023, primeiro ano do governo Lula. A partir de 2024, as perdas saltaram para R$ 2,6 bilhões.
Programa de demissão voluntária fica abaixo da meta
Uma das principais apostas da direção dos Correios para reduzir despesas era o Programa de Demissão Voluntária. A iniciativa, porém, ficou abaixo das expectativas. No primeiro programa, encerrado em março, apenas 3.181 empregados aderiram, menos de um terço da meta inicial de 10 mil desligamentos. Mesmo assim, a estatal afirma ter alcançado cerca de 45% da economia projetada de R$ 1,4 bilhão com a medida.
Diante da baixa adesão, os Correios anunciaram na semana passada que estudam um novo PDV voltado a aproximadamente 5 mil empregados, com potencial estimado de redução de despesas de R$ 685,4 milhões até 2027. A medida está ligada ao fechamento de cerca de mil pontos de atendimento, entre agências e centros de tratamento e armazenamento de cargas.
Embora as medidas tenham contribuído para melhorar o resultado operacional e levar os Correios a um lucro bruto de R$ 153,4 milhões no primeiro trimestre, o avanço das despesas administrativas e financeiras acabou anulando esse ganho. Em um ano, os gastos administrativos saltaram de R$ 1,22 bilhão para R$ 2,27 bilhões, impulsionados por reajustes salariais, inflação e provisões para processos judiciais.
Competitividade com empresas privadas preocupa especialistas
Para especialistas, os Correios perderam competitividade justamente no mercado que deveria sustentar sua recuperação: o de encomendas e logística voltado ao comércio eletrônico. Enquanto o volume de correspondências tradicionais continua encolhendo, a disputa pelas encomendas passou a exigir investimentos crescentes em tecnologia, automação e integração logística.
Nos últimos anos, empresas como Mercado Livre e Amazon aceleraram investimentos em centros de distribuição, automação e expansão de suas redes logísticas, reduzindo gradualmente uma das principais vantagens históricas dos Correios: a capilaridade e a capacidade de atender localidades mais remotas.
O governo já autorizou uma nova operação de crédito de até R$ 8 bilhões com garantia da União para financiar a continuidade da reestruturação. O Tribunal de Contas da União cobrou ajustes no plano de recuperação e apontou fragilidades na análise da capacidade de pagamento da estatal. O tribunal também alertou para o risco de exposição fiscal caso sejam necessários novos aportes.
Em nota, os Correios contestaram as avaliações de que o plano de recuperação estaria aquém do esperado e afirmaram que os resultados do primeiro trimestre ficaram dentro das premissas estabelecidas pela reestruturação. A empresa informou que a receita bruta alcançou R$ 4,04 bilhões no período e atribuiu parte relevante do prejuízo a despesas com passivos judiciais e precatórios, que somaram R$ 1,4 bilhão.
