São Paulo (AE) – O Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu o mercado financeiro ontem ao reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 16,25% ao ano. Em nota divulgada após a reunião, o Banco Central (BC) afirmou que a decisão foi tomada a partir de “indicações recentes de redução do risco de inflação em relação às metas”. O corte foi definido por seis votos a três. No mercado, era quase unanimidade que o Copom manteria pela terceira vez consecutiva os juros em 16,50% ao ano. Dos 40 entrevistados ontem, apenas 5 apostavam em redução da taxa neste mês.

Mas, apesar de contrariar as expectativas do mercado, a redução foi considerada positiva pelos economistas. Na avaliação deles, o corte da Selic foi um gesto simbólico para melhorar as expectativas dos investidores, que tinham ficado muito pessimistas com as últimas decisões. “O BC exagerou na dose em janeiro e fevereiro, e agora está tentando melhorar o clima e restaurar a confiança no crescimento do País. Com esse corte simbólico, volta a esperança de que o ciclo de queda dos juros será retomado”, afirmou um analista do mercado.

No setor produtivo, o corte foi comemorado sem entusiasmo. Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva, o corte simbólico na Selic vai no sentido correto, mas sem a intensidade que permita no curto prazo alterar o estado de apatia do mercado interno.

Apesar de ser um corte pequeno, algumas instituições anunciaram quase que simultaneamente reduções em suas taxas de juros cobradas do consumidor em financiamentos e empréstimos pessoais. Entre eles, Bradesco, HSBC e Banco do Brasil. No comércio, no entanto, a redução na Selic não animou muito. Grandes redes de varejo como Casas Bahia e Lojas Cem já estavam decididas a manter as taxas atuais, independente da decisão do Copom.

País tem maior taxa de juro real

A taxa de juro real (descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses) do Brasil continua a maior do mundo, apesar do corte de 0,25 ponto porcentual na Selic promovido ontem pelo Copom. O País tem hoje a liderança absoluta do ranking das maiores taxas de juro real do mundo, com 10,6% ao ano, bem distante dos demais países da América Latina. A média geral dos 40 países analisados pela consultoria é de 1,9%, e a dos países emergentes, 3,6%.

A situação é complicada na ponta do crédito, segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). A média atual de 65,4% ao ano para financiamentos a pessoas físicas representa uma taxa real de 56%.