Sete cooperativas paranaenses compraram em agosto a esmagadora de soja da multinacional Louis Dreyfus Company em Ponta Grossa, nos Campos Gerais. O consórcio é liderado pela Frísia Cooperativa Agroindustrial e reúne também Agrária, Capal, Coasul, Integrada, Castrolanda e Bom Jesus. O valor da transação não foi divulgado, mas somado ao capital de giro para movimentar a fábrica chegaria a R$ 1,4 bilhão, num dos maiores investimentos de intercooperação já feitos no país. As informações são da Gazeta do Povo.
O complexo adquirido ocupa 58 hectares e reúne estrutura de recepção, beneficiamento e armazenamento de grãos, com capacidade estática de 300 mil toneladas. A área industrial permite extração de óleo e farelo, degomagem, envase de lecitina e refino. Os 57 mil associados das sete cooperativas passam a controlar toda a cadeia produtiva da soja na região.
O movimento não é isolado. Nos últimos dois anos, cooperativas agropecuárias abriram um ciclo bilionário de investimento em novas esmagadoras para extração de óleo degomado e produção de biodiesel, principalmente no Sul e no Centro-Oeste. No Rio Grande do Sul, Cotrijal, Cotrisal e Cotripal se uniram na Soli3, projeto de R$ 1,25 bilhão em Cruz Alta. Em Goiás, a Comigo constrói uma esmagadora de R$ 1,5 bilhão em Palmeira de Goiás.
A Coamo investe R$ 480 milhões em uma planta de biodiesel em Paranaguá. A Cooperalfa aporta R$ 230 milhões para erguer uma usina de biodiesel em Chapecó. A Cocamar investe R$ 750 milhões numa nova esmagadora em Maringá. Todas apostam na expansão da moagem de soja, de olho no mandato de mistura obrigatória de biodiesel no diesel, que subirá de 15% para 20% até 2030.
Ao avançar para o esmagamento, as cooperativas devem capturar de 1,5% a 2% da margem da cadeia produtiva, sem contar o efeito do farelo de soja na economia circular. Se todas as sete cooperativas adquirissem 100% do farelo que elas consomem nessa indústria, estariam consumindo quase 25% da produção da esmagadora, segundo Mario Dykstra, executivo da Frísia. A produção do farelo excedente será destinada tanto ao mercado doméstico como para exportação.
Daniel Vargas, professor de Economia da FGV, vê na venda da esmagadora da Louis Dreyfus o indício de uma tendência mais ampla: tradings globais concentrando capital em logística, como portos e terminais, e desinvestindo aos poucos dos ativos industriais. As cooperativas, por sua vez, tentam controlar o tempo de compra e venda das commodities, para não serem obrigadas a vender no pico da safra, quando os preços caem.
A Louis Dreyfus informou em nota que revisita e adequa seu portfólio de ativos de acordo com os planos de crescimento, otimização e eficiência operacional. A decisão estratégica foi vender a unidade de Ponta Grossa concentrando as atividades na ampliação do processamento e eficiência em outras instalações dedicadas a grãos e oleaginosas. Em 2025, a companhia conquistou, por meio de joint venture, um dos terminais do Porto de Paranaguá.
A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais vê com bons olhos o embarque de mais cooperativas no esmagamento de grãos. Precisamos de mais companhias defendendo a necessidade de esmagarmos mais soja, para adicionar mais valor e aumentar a participação da soja processada no total da soja produzida, avalia André Nassar, presidente da associação.
Eduardo Damião, professor do mestrado em Gestão de Cooperativas da PUC-PR, destaca que o desafio está na governança. Sete organizações independentes precisam transformar interesses individuais em estratégia coletiva. Se conseguirem criar um modelo que elimine conflitos, harmonize as relações e maximize resultados, será um case fantástico a ser estudado e replicado pelas cooperativas, avalia.
