Parte dos brasileiros acha que seguro de vida é um tipo de investimento e que pagará juros menores se pagar o valor mínimo do cartão, enquanto outra parte diz que não poupa por desconfiança das instituições financeiras ou por medo de que o governo confisque seu dinheiro. Os dados, que podem causar espanto em um leitor mais atento e mais familiarizado com produtos e serviços financeiros, estão em uma pesquisa do Instituto Data Popular cujo objetivo foi o de medir o grau de educação financeira do brasileiro e, com isso, ser usada para a elaboração de políticas públicas na área.

“A pesquisa mostrou um grau de desinformação bastante elevado em relação às características dos serviços financeiros oferecidos no mercado e a imputação desses serviços para a vida financeira dos indivíduos”, segundo a presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Maria Helena Santana. O levantamento, realizado em 2008, mas divulgado apenas agora, serviu de base para o lançamento, hoje, das novas propostas da Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef) pelo Comitê Nacional de Educação Financeira (Conef, realizado na sede da CVM, no Rio de Janeiro.

A iniciativa reúne vários programas de educação financeira no País, incluindo alguns já em andamento, como o projeto-piloto de educação financeira nas escolas. Também estão na agenda programas para adultos e aposentados. Entre os objetivos está o de fomentar o consumo consciente de produtos e serviços financeiros e permitir a formação de poupança interna, viabilizando o investimento de empresas e o crescimento da economia. As políticas públicas e a forma de mensuração de resultados ainda estão em fase de formulação.

Fazem parte da iniciativa várias organizações do mercado e membros do Comitê de Regulação e Fiscalização dos Mercados Financeiros de Capitais, de Seguros, de Previdência e de Capitalização (Coremec), ou seja, a CVM, a BM&FBovespa, o Ministério da Previdência Social e o Banco Central. Segundo os representantes dos órgãos envolvidos no projeto, apesar de apresentar semelhanças com outros países, como os Estados Unidos, o Reino Unido e Japão, a pesquisa acende um sinal amarelo sobre a educação financeira da população. Não sem motivo.

Entre as mais de dez opções sobre as possíveis vantagens do pagamento do valor mínimo da fatura do cartão de crédito, a segunda mais citada, com 16% das respostas, foi a de pagar (supostamente) menos juros, taxas e tarifas. “Não compreender que pagar o mínimo significa uma rolagem com juros elevados é um alerta importante”, diz Maria Helena, atual presidente do sistema rotativo de liderança do Coremec.

Dentre as razões apontadas para não investir, 12% dos entrevistados apontaram a desconfiança em instituições financeiras e 5%, o medo de que o governo vá tomar o dinheiro. Já 16% disseram não saber como nem onde investir. Na pesquisa qualitativa, o seguro de vida aparece como sinônimo de investimento. E por mais absurdo que possa parecer, muitos dos entrevistados chegaram a considerar a compra de roupas como um investimento.

O levantamento também mostra que das 1.809 pessoas ouvidas, a maior parte (52%) se autodenomina poupadora. Mas 44% pediram dinheiro emprestado nos meses anteriores à pesquisa e 30% pagam apenas a fatura mínima do cartão. Entre os entrevistados com até três anos de estudo que compram a prazo, 43% preferem parcelas de valores menores, mesmo que prestações menores embutam juros altos. Conhecida popularmente como a prestação que “cabe no bolso”, independentemente do número de parcelas ser maior.

O diretor de Administração do Banco Central (BC), Altamir Lopes, diz que o retrato é especialmente relevante diante das mudanças da economia nos últimos anos, quando 36 milhões de pessoas, boa parte ávida por consumir, ascendeu à classe C entre 2003 e 2011. Ele também destaca que, entre 2002 e 2011, o número dos que têm uma conta bancária subiu de 55,7 milhões para 90,7 milhões e o de pessoas que têm algum produto bancário,tipo investimento financeiro, por exemplo, passou de 87,6 milhões para 161,9 milhões.