A competição no mercado internacional e a garantia de fornecimento de algodão no País são as duas principais preocupações da indústria têxtil. A manifestação foi expressada esta semana, durante reunião do Conselho de Administração da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit), realizado no Cietep, em Curitiba. Com uma balança comercial crescentemente deficitária, o setor tem se articulado para defender o mercado interno. Ao mesmo tempo, terá de enfrentar nos próximos meses uma escassez de algodão que deve elevar os custos de produção no País.

“A balança comercial brasileira no setor saiu de um superávit em 2004 para um déficit de US$ 3,5 bilhões até agora em 2010”, destacou Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit. “A entrada de importados vem sendo bem absorvida porque o mercado interno está crescendo, mas o cenário vai ficar mais complicado se o aumento da renda desacelerar nos próximos anos.”

A entrada de produtos importados ocorre em um momento em que há pressões para que a China, maior produtor mundial de confecções do mundo, seja reconhecida como uma economia de mercado. Além disso, há quem defenda no governo a redução das tarifas de importação para países pobres, como Bangladesh, que têm foco na exportação de têxteis.

Em 10 de fevereiro deste ano, sob pressão do setor têxtil, a Câmara dos Deputados retirou do texto da Medida Provisória 482 um artigo que eliminava o imposto de importação dos Países de Menor Desenvolvimento Econômico Relativo (PMDERs). “A defesa do setor no caso da MP 482 foi muito relevante porque deixaria a indústria nacional em desvantagem. Queremos condições de igualdade para preservar o emprego no País”, disse o presidente da Abit, Agnaldo Diniz. “A indústria brasileira é competitiva, mas lida com uma carga tributária pesada e infraestrutura deficiente”, completou.

O deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB), que coordena a Frente Parlamentar da Indústria Têxtil, comentou durante a reunião que o tema da competição com os produtores asiáticos, em especial com a China, passará pelo Congresso nos próximos anos. “O setor precisa estar bem organizado para ser ouvido quando for discutido o reconhecimento da China como economia de mercado, por exemplo”, disse.

Cenário complicado

A preocupação com a competição asiática vem em um cenário econômico complicado, apresentado pelo economista Fábio Silveira, da RC Consultores. Ele explicou que a perspectiva de crescimento nas economias desenvolvidas é nebuloso até 2012, o que forçará os países de rápida expansão, como China e Índia, a procurar outros mercados para direcionar suas exportações. “Além disso, a tendência de médio prazo é de desaceleração na China, o que vai fazer com que seu governo procure alternativas para que ela não seja acentuada”, disse Silveira.

Além da competição, a indústria se preocupa com o fornecimento de algodão nos próximos meses. Números apresentados na reunião mostram que podem faltar de 100 mil a 200 mil toneladas de fibras entre janeiro e junho de 2011, por causa da baixa produção global no último ciclo. O problema é agravado pelo fato de 600 mil toneladas da safra brasileira, que começa a ser colhida, estarem negociadas com tradings, que preferem exportar. No início do próximo mês, representantes do setor devem se reunir para estudar soluções à possível falta de algodão.

Inovação

Durante a reunião, foi apresentado o Núcleo de Inovação da Abit, que começa a ser articulado com apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI). “A CNI tinha a intenção de fazer com que a inova&cc,edil;ão entrasse de vez na agenda dos empresários. Daí surgiu a mobilização nacional pela inovação, que estimula a criação de núcleos de uma forma capilarizada em federações e associações”, contou o gerente de Política Industrial da CNI, Paulo Mol.

O presidente da Fiep, Rodrigo da Rocha Loures, foi um dos idealizadores do movimento liderado pela CNI e, para ele, o desafio agora é que os núcleos espalhados pelo país se tornem um sistema empresarial de inovação capaz de ser um contraponto ao sistema estatal ligado ao setor acadêmico. “Os empresários não precisam apenas valorizar a inovação. Precisam passar a ser parte na gestão dos recursos do País direcionados para isso”, afirmou durante a reunião. “O setor produtivo ainda é considerado um coadjuvante nesse processo, e não um parceiro.”