Somente no Paraná são cerca de
1.700 espécies de cogumelo.

Há muito tempo os japoneses conhecem as propriedades medicinais do cogumelo, mas somente agora o Brasil começa a pesquisar as suas espécies. Só nas florestas do Paraná são 1.700. Desses estudos podem resultar a descoberta de novos alimentos, remédios, corantes, além de substâncias que podem ser usadas na indústria de cosméticos, na própria agricultura, entre outras.

A pesquisadora da Embrapa Maria Angela de Almeida Amazonas comenta que o estudo desses fungos é o ponto de partida para ampliar a produção e o mercado consumidor. Segundo ela, esses seres possuem um enorme potencial de utilização e não podem ser desprezados. Existem até pesquisas envolvendo a cura do câncer e da aids.

Estima-se que a América Latina detém a metade da biodiversidade, mas contribui com apenas 2% da produção mundial. Quando se fala em termos de Brasil, os números são ainda menores, 0,01%. Para Maria Ângela, um investimento a longo prazo poderia fazer o País entrar de vez nesse mercado, gerando emprego, renda e melhorando a qualidade da alimentação da população. Hoje, o preço do quilo do produto atinge patamares exorbitantes no exterior, variam entre US$ 400 e US$ 1 mil. Cerca de 90% do que o Brasil produz são exportados e grande parte vai para o Japão. Os valores são o reflexo da baixa produção e também do reconhecimento dos benefícios que algumas espécies de cogumelos proporcionam.

Paranaense

No Paraná um dos tipos que está em estudo mais avançado é o Agaricus Brasiliensis. A espécie é natural do Estado e foi encontrada pela primeira vez em Colombo, na sede da própria Embrapa. Inicialmente foi confundido com outro da América do Norte, a Agaricus blazei. Desfeito o engano, a Embrapa decidiu pesquisar todo o potencial de utilização do fungo e conta com diversos parceiros. Sabe-se que do ponto de vista nutricional o agaricus pode ser comparado a alimentos como a carne, leite e ovos. No caso da carne é até mais vantajoso, pois é de mais fácil digestão.

A pesquisa dos aspectos nutricionais está sendo desenvolvida pelas Faculdades Evangélica em Curitiba, coordenada pelo professor e doutor em nutrição experimental, Gilberto Simeone. Os primeiros testes foram feitos no segundo semestre do ano passado. O professor acompanhou o desenvolvimento de animais que foram alimentados com o agaricus in natura e com outras fontes de nutrientes. No primeiro momento os estudos não revelaram dados muito positivos. O desenvolvimento ficou abaixo do esperado.

No entanto, Gilberto explica que o resultado não é desanimador. É comum alimentos serem considerados boa fonte de nutrientes, mas o organismo não consegue aproveitar o máximo quando estão crus. “É o que ocorre com a cenoura por exemplo, quando cozida o organismo humano aproveita melhor suas propriedades”, fala. Agora este vai ser o segundo passo da pesquisa. O agaricus vai sofrer um tratamento térmico. “Pode ter algum fator que esteja influenciando na absorção e isso seja eliminado com o cozimento”, fala. A pesquisa também quer descobrir se o agaricus é uma boa fonte de micro-nutrientes, como o ferro.

Cultivo exige vários cuidados

O preço que os produtos alcançam no mercado internacional podem ser um grande atrativo para novos produtores. Mas cultivar o fungo não é tão fácil assim. A empresa Grupo Agaricus de Pilar, de São Paulo, foi criada há cinco anos e só agora começa a vislumbrar a possibilidade de lucros. Uma das grandes dificuldades está na forma de cultivar o fungo. A tecnologia empregada gera muita mão-de-obra e baixa produtividade. Além disso, a espécie é muito delicada e exige atenção 24 horas por dia. Qualquer descuido pode acabar com todo o trabalho.

Os produtores compram o fungo quando está em fase vegetativa (micélio). Ele é semeado em sacos cheios de substrato, que é composto por farelo de trigo e de soja, bagaço de cana, capim seco entre outros. Ali permanece por 30 dias se multiplicando. “Nessa fase o fungo gosta de gás carbônico. Por isso os pacotes são fechados”, explica Lourival Shuji Kozaki, um dos sócios da empresa.

Depois, o pacote é aberto e colocado em uma estufa para proteger o fungo da chuva e manter a temperatura adequada. Em cima do substrato é colocada uma camada de terra de aproximadamente cinco centímetros. A terra não pode conter material orgânico e nem herbicidas. “Geralmente é usada a camada superficial de barrancos”, fala.

Os cogumelos brotam em cima da terra. Nessa fase é importante controlar a temperatura, a umidade e a oxigenação do ambiente. Para que o fungo forme o chapeuzinho, é preciso que ele pressinta perigo no ambiente e sinta necessidade de se reproduzir para conservar a espécie. Para isso, os agricultores baixam a temperatura entre 10.º e 15.º graus. No entanto, se o efeito for além do esperado, pode comprometer toda a produção.

Da semeadura até a colheita leva três meses e, quando começam, são feitas três vezes ao dia. Depois os cogumelos são lavados um a um, sendo cortados de forma longitunial. Durante 24 horas são desidratados a uma temperatura que varia entre 40.ºC e 60.ºC. Por mês, o grupo Gapi produz entre 600 e 700 quilos. Grande parte vai para o exterior. Lourival comenta que para chegar a essa produção eles fizeram uma serie de experiências. “Só não desisti porque estávamos trabalhando em cinco sócios”, fala. Uma pesquisadora da Emprapa vai começar estudar o substrato com o objetivo de aumentar a produtividade. (EW)