Antônio Milena / ABr
Em Pequim, Lula desembarca do Boeing da FAB.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva já está na China. Ele desembarcou na madrugada de ontem na base aérea de Pequim, onde permanecerá até a próxima terça-feira (25). O vôo, inicialmente previsto para chegar às 21h30min (horário local), sofreu um atraso de três horas porque Lula participou de eventos na cidade de Kiev (Ucrânia). O presidente teve um encontro com o presidente da Ucrânia, Leonid Kuchma, e visitou o Monastério de Lavras.

Em Pequim, Lula foi recebido pelo vice-ministro das Relações Exteriores, Zhou Wenzhong. O presidente seguiu para o Palácio Casa Oficial de Diaoyutai, onde autoridades normalmente são hospedadas pelo governo chinês. O presidente descansa até o meio-dia de hoje. À tarde, ele visita o Palácio de Verão, onde os antigos imperadores custamavam passar o verão, uma época do ano marcada por intenso calor e baixa umidade na China.

Às 17h, o presidente participará da inauguração do escritório da Petrobras em Pequim. A Petrobras e a Sinopec, estatal chinesa do petróleo, assinarão acordo envolvendo investimentos da ordem de US$ 300 milhões.

Parceiro comercial

Há apenas três anos, a China importava pouco mais de US$ 1 bilhão em produtos brasileiros e estava em 12.º lugar no ranking de países compradores. No ano passado, o país tornou-se o 3.º principal destino de vendas do Brasil, com US$ 4,5 bilhões, ultrapassando parceiros tradicionais como Holanda e Alemanha, além de emparelhar com a Argentina. Neste ano, o fenômeno China continua a todo vapor. No primeiro trimestre , as vendas externas brasileiras para a China atingiram US$ 1,125 bilhão – aumento de 53,9%, em comparação com o mesmo período de 2003. Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva, “a China se tornou um parceiro estratégico para o Brasil, temos complementaridades muito importantes” .

O Brasil funciona como o celeiro de alimentos e matérias-primas para a China, pobre em recursos naturais. Na pauta de exportações para o gigante asiático no ano passado, 34,9% das vendas foram de soja e derivados, 16,9% de minério de ferro e subprodutos, 10,1% de aço, 5,9% de celulose e 5,7% de semimanufaturados de ferro e aço. Nove empresas foram responsáveis por 45% das exportações brasileiras para a China: Acesita, CSN, Usiminas, CST (fornecendo aço), Caemi e Companhia Vale do Rio Doce (minério de ferro), Aracruz e Votorantim Celulose e Papel (celulose e papel) e Braskem (petroquímicos).

“O comércio brasileiro se beneficiou muito do boom da economia chinesa, que aumentou tanto os volumes como preços das commodities. A China se tornou um mercado muito importante, apesar de o Brasil exportar para lá principalmente matérias-primas, enquanto os produtos de maior valor agregado são exportados para a América Latina e os Estados Unidos”, disse o economista-chefe do banco ABN Amro, Mário Mesquita, em um relatório publicado recentemente, “Brasil: A conexão chinesa”.

Um dos grandes desafios do Brasil é a diversificação das exportações para a China, atualmente muito concentradas. De acordo com análise do Ministério do Desenvolvimento, a perspectiva é de duplicação do atual número de itens exportados – de 777 para cerca de 1.600 – a curto prazo. Pode não ser tão fácil concorrer com a indústria chinesa em bens de maior valor agregado.

Para Antônio Corrêa de Lacerda, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), há espaço para aumentar as vendas de manufaturados. “A participação brasileira nas importações chinesas ainda é pequena, de menos de 1%, temos muito espaço para crescer”, diz. “Dá para ampliar não só commodities, há muitas máquinas e equipamentos que os chineses precisam, mas ainda não fabricam.”

Muitas empresas já vendem produtos sofisticados no mercado chinês. A Voith Siemens Hydro, por exemplo, tornou-se fornecedora de equipamentos para a maior usina hidrelétrica do mundo – a Três Gargantas, no Rio Yang Tsé, e outras duas usinas. A empresa exporta geradores e turbinas para a subsidiária da Voith Siemens em Xangai. A Cummins começou ?tateando? o mercado chinês em 2002 e, no ano passado, embarcou 2.300 motores para o país.

O setor de serviços não fica atrás. A Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) abre na próxima semana um escritório em Xangai. O objetivo é oferecer instrumentos de proteção para importadores de soja, por exemplo. “Em vez de fazerem hedge na Bolsa de Chicago, os importadores chineses poderiam usar a BM&F em Xangai”, diz Manoel Félix Cintra Neto, presidente da BM&F.

Há também as empresas 100% brasileiras que se firmaram na China por meio de joint ventures. A Embraco exportava compressores do Brasil e da Itália para a China. Em 1995, estabeleceu sociedade com o grupo Snowflake e passou a fabricar na Ásia. A Embraer entregou em dezembro o primeiro avião da subsidiária chinesa – uma joint venture com a Harbin Aircraft Industry Group Co. Ltd. e a Hafei Aviation Industry Co. Ltd. E a Vale do Rio Doce fechou um acordo com a siderúrgica chinesa Baogang, em novembro de 2001, dando origem à BaoVale. O acordo permite a exploração conjunta do minério.

Saldo positivo

No ano passado, o Brasil acumulou superávit de US$ 2,4 bilhões com a China. O País importa principalmente eletroeletrônicos e carvão dos chineses. Mas o governo chinês já demonstrou às autoridade brasileiras a intenção de equilibrar o comércio entre os dois países, aumentando as exportações para o Brasil.

O próximo passo para o estreitamento das relações bilaterais é o investimento direto de empresas chinesas no Brasil. Nas contas do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, os investimentos diretos da China no Brasil devem chegar a US$ 5 bilhões nos próximos três anos. Muitas empresas querem investir em portos e infra-estrutura, para garantir o fornecimento de matérias-primas. Os chineses devem também direcionar recursos para os setores de mineração, siderurgia, energia e agronegócio.