O varejo brasileiro enfrenta uma crise profunda. Casas Bahia e Marabraz pediram recuperação judicial em poucos dias, pressionadas por juros elevados, crédito escasso e consumidores endividados. A Casas Bahia entrou com o pedido no domingo (16) após registrar prejuízo de mais de R$ 10 bilhões no segundo trimestre. As dívidas superam R$ 17 bilhões. A Marabraz pediu recuperação no sábado (15), com passivo de R$ 140 milhões. As informações são da Gazeta do Povo.
A taxa Selic está em 14% ao ano, o que encarece o dinheiro usado pelas empresas para financiar estoques e manter as lojas abastecidas. O impacto é ainda maior no crediário, essencial para o modelo de negócio dessas varejistas. Na Casas Bahia, as vendas no crediário responderam por 15,9% das vendas no segundo trimestre. Com o crédito mais caro, o consumidor parcela menos, compra produtos mais baratos ou adia a compra.
O endividamento das famílias brasileiras atingiu o recorde de 82% em julho, segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor divulgada pela CNC. Este é o maior nível da série histórica e marca o sexto mês consecutivo de alta. As vendas no varejo encolhem há 14 meses seguidos, segundo a Cielo.
Júlio Moretti, CEO da Neot, classifica o momento como uma crise centrada em juros e escassez de crédito. O crédito na loja, que por décadas foi o ponto competitivo dos lojistas, deixou de ser vantagem e passou a ser custo. As famílias estão mais seletivas e priorizam segmentos de maior recorrência, como supermercados e farmácias.
O varejo também enfrenta uma mudança no modelo de consumo. Plataformas como Mercado Livre e Amazon transformaram o varejo de eletrodomésticos e eletrônicos. Apenas em julho, as vendas por canais digitais cresceram oito vezes mais do que as das lojas físicas, segundo a Cielo.
A reestruturação financeira da Casas Bahia dependia da captação de novos recursos e da ampliação dos limites de crédito. Segundo Renato Franklin, presidente da empresa, o plano previa novas captações de dívida e uma oferta subsequente de ações, que não se concretizaram. As ações da varejista, que registraram sua máxima histórica acima de R$ 400 em 2020, hoje não chegam a R$ 1.
A Marabraz, que chegou a ter mais de 130 unidades em São Paulo, enfrenta uma combinação de restrição de crédito, disputa societária e piora das condições de consumo. Parte dos problemas tem a mesma origem da Casas Bahia, mas a raiz passa pela estrutura patrimonial e pela dinâmica familiar. A disputa em torno da holding que concentrava os imóveis impediu o uso deles como garantia, dificultando o acesso a crédito.
O Grupo Toky, controlador das marcas Tok&Stok e Mobly, também entrou com pedido de recuperação judicial em maio, para renegociar cerca de R$ 1,1 bilhão em dívidas. A crise, portanto, não é somente conjuntural: além de enfrentar juros altos e consumidores endividados, as redes tradicionais precisam competir com empresas digitais que operam com estruturas diferentes.
