Caminhoneiros bloquearam ontem, no início da tarde, os portões de entrada e saída do pátio de triagem do Porto de Paranaguá. Somente 252 caminhões conseguiram descarregar os grãos, contra os picos de 2,5 mil caminhões/dia na safra do ano passado. A manifestação dos caminhoneiros ocorreu em protesto contra o tratamento recebido dos embarcadores. A categoria deveria receber uma diária de R$ 0,15 a R$ 0,25 por tonelada/hora durante o tempo de espera no pátio de triagem. Mas em virtude da demora no escoamento da safra, reivindica o pagamento de uma sobrestadia pelo período em que os caminhoneiros aguardarem na estrada.

Por causa do fechamento do estacionamento – que estava lotado, com mais de 1,1 mil caminhões – o final da fila na BR-277 voltou a ficar antes do posto de pedágio da Ecovia, em São José dos Pinhais. No início da noite, o congestionamento terminava no km 63 da rodovia. Em função do intervalo de dez quilômetros na Serra do Mar, a fila contínua totalizava 50 quilômetros, com aproximadamente 2 mil caminhões. “Se até amanhã (hoje) ninguém tomar uma atitude, a fila vai para Campo Largo de novo”, comenta o policial rodoviário federal Cláudio Dzulinski, do Posto Vanzer, no km 62 da BR-277.

Ontem à tarde, a direção da Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa) se reuniu durante duas horas com representantes dos sindicatos dos caminhoneiros autônomos e das transportadoras para tratar do problema da fila. Uma nova reunião ficou marcada para hoje, às 14h, com a presença dos embarcadores e operadores portuários. O coordenador de logística do Ministério dos Transportes, José Eduardo Albaneze, foi convocado para intermediar as negociações.

“Não somos massa de manobra. Os problemas existem há anos e é brutal a violência que se comete contra os caminhoneiros. O que se paga aos caminhoneiros não paga nem a refeição”, afirma Diumar Bueno, presidente do Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos de Bens do Estado do Paraná (Sindicam). “Enquanto for de graça, as cooperativas e tradings vão continuar mandando mais caminhões do que o programado. Com a sobrestadia, a retenção (no interior) é natural”, avalia o diretor técnico da Appa, Ogarito Linhares.

Cumprimento

Na reunião de ontem, o superintendente da Appa, Eduardo Requião, anunciou um prazo final até a próxima sexta-feira para que os operadores e embarcadores que atuam no Porto de Paranaguá cumpram as pranchas (limites mínimos de carregamento de grãos nos navios) de 1.500 toneladas/hora, podendo chegar a um máximo de 1.800 toneladas/hora. Uma ordem de serviço assinada no final de 2003 estipula aos operadores portuários a chamada de número específico de caminhões, conforme a capacidade de armazenagem dos seus silos privados e da chegada de navios nominados para receber a carga.

De acordo com a Appa, desde a última sexta-feira, apenas três navios foram programados para embarque de grãos, enquanto há 16 navios atracados para movimentar outras mercadorias. O próximo embarque de soja está previsto para 22 de março.

“Previmos com antecedência a logística da operação toda, mas não obtivemos o apoio necessário para mantermos nosso planejamento de qualidade e eficiência, porque pessoas irresponsáveis estão desafiando o governo do Paraná, o porto e a credibilidade de nossas ações”, declarou Requião. Caso a ordem de serviço não seja cumprida até o próximo dia 10, a Appa pretende assumir o controle absoluto da operação portuária, desde a programação de navios, até o recebimento de caminhões e as pranchas de carregamento. (Olavo Pesch)

Greve de fiscais prejudica avicultura

A paralisação das atividades dos fiscais federais agropecuários, iniciada na última segunda-feira, está provocando prejuízos diários de US$ 32 milhões somente para a avicultura brasileira, informou ontem o secretário executivo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, José Amauri Dimarzio. Segundo ele, o governo está buscando alternativas que levem a um acordo com a categoria, responsável pela inspeção de todos os produtos vegetais e animais exportados e importados pelo Brasil.

Dimarzio afirmou que levou ao Ministério do Planejamento e ao próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva a preocupação com a greve, mas adiantou que o orçamento e a área financeira não permitem o atendimento de todas as reivindicações. “Nós apresentamos uma proposta concreta para a Associação Nacional dos Fiscais Federais Agropecuários, mas eles entenderam que ainda não está próxima do que eles pretendiam e decidiram manter a paralisação.”

Os fiscais federais agropecuários reivindicam reajuste salarial médio de 30%, a fim de equiparar os ganhos da carreira com os dos fiscais federais de outras áreas. O impacto na folha de pagamento seria de R$ 250 milhões, mas o governo acena com um reajuste cujo aumento da folha seria de R$ 60 milhões. O governo disse que aguarda uma contraproposta da categoria.

Dimarzio afirmou que empresas exportadoras de café, frango, cacau e bovinos estão acionando a Justiça em vários estados para tentar reduzir o impacto da greve. “Estamos prevendo uma avalanche de mandados de segurança, o que é muito desgastante”, disse o secretário. Por meio dos mandados, o fiscal federal é obrigado a emitir os certificados sanitários para exportação. Até agora, pelo menos 10 navios estão parados no Porto de Paranaguá devido à greve.

Dimarzio não descartou a possibilidade de o governo editar uma medida provisória delegando aos estados e municípios a competência para realizar a inspeção dos produtos agropecuários. “Se chegarmos a uma situação de caos na produção e comercialização do agronegócio o governo pode emitir uma MP. Aliás, vários governadores colocaram seus técnicos à disposição. Mas nós queremos é acertar a situação e chegar um acordo o mais breve possível”, afirmou.

Paraná

No Paraná, a categoria realizou assembléia ontem à tarde e decidiu manter a paralisação. “Continuamos parados, sem emissão de nenhum documento e sem nenhuma fiscalização, lamentavelmente causando algum prejuízo”, disse o presidente da Associação dos Fiscais Agropecuários do Paraná, Hugo Caruso. No Porto de Paranaguá, dois dos sete fiscais realizaram a vistoria nos navios, mas não emitiram os certificados fitossanitários. “Estamos liberando alguns porões para embarque para não causar um transtorno maior”, explicou Caruso, em referência à fila de caminhões na BR-277.

Na estação aduaneira Foz do Iguaçu, apenas 20 caminhões com cargas perecíveis foram liberados para seguir viagem para o Paraguai. Normalmente, são liberados em média 200 caminhões no período diurno e mais 200 a 300 à noite. A operação noturna, para receber grãos do Paraguai, está interrompida. “Existem aproximadamente mil caminhões do lado paraguaio aguardando o fim da nossa greve para entrar no Brasil”, cita Caruso. “Há uma preocupação grande do governo do Paraguai, que não tem mais onde armazenar o produto.” Na Ceasa de Foz, mais 70 caminhões que levariam hortigranjeiros para Paraguai e Argentina ficaram retidos.