O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconheceu ontem, diante de cerca de 100 empresários do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, reunidos no Fórum Regional Sul do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, em Curitiba, que o câmbio valorizado é, atualmente, o ?maior problema econômico?. ?Tira o sono dos ministros da área econômica?, acentuou. Mas procurou mostrar-lhes que isso também pode ser encarado de forma positiva. ?O Brasil tem que se acostumar com certo câmbio valorizado porque é o preço do nosso sucesso no comércio internacional, é o preço de termos uma economia mais estável, mais sólida?, afirmou.
Segundo Mantega, o governo optou pelo câmbio flutuante e não vai mudar o posicionamento. ?Nós procuramos não usar certos artificialismos?, justificou. Mas prometeu que o governo vai ?tomar as medidas necessárias? caso perceba ?exageros?. Segundo ele, para evitar que isso aconteça, o governo tem procurado a redução gradual da taxa de juros e a busca do aumento, não apenas das exportações, mas também das importações, retirando dólares do mercado. O governo também continuará fazendo reservas. ?Os R$ 100 bilhões (reservas atuais) não são o limite. Podemos chegar ao que for necessário para diminuir essa oferta de dólares?, acentuou. ?É mais fácil administrar excesso do que escassez?.
O ministro reafirmou que a ?turbulência? do mercado não deve atingir o País, apesar da queda na Bolsa de Valores de São Paulo que, no momento em que falava, era de quase 4%. ?Temos que nos acostumar que, numa economia globalizada, com fluxos financeiros cada vez mais elevados e que têm facilidade de se deslocar de um mercado para o outro, periodicamente vai haver algum tipo de turbulência, um tipo de ajuste?, disse. ?O importante é saber se os países estão ou não habilitados para enfrentar isso com certa tranqüilidade, e eu posso garantir que o Brasil nunca esteve tão sólido ou preparado como agora.?
Mantega estava acompanhado dos ministros do Planejamento, Paulo Bernardo, e de Relações Institucionais, Tarso Genro. Aos empresários eles apresentaram as linhas mestras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que destina R$ 37,5 bilhões para a região Sul do País. ?O objetivo é produzir um crescimento maior, com qualidade diferente daquilo que vimos no passado?, afirmou o ministro da Fazenda. ?A gente nem lembra mais quando o Brasil crescia, mas, fazendo um esforço de memória, quando o Brasil crescia, crescia com concentração de renda?, ressaltou. ?O PAC se orienta para outro tipo de crescimento, que abrange uma distribuição melhor de renda.?
Social
De acordo com o ministro, o PAC não acaba com os programas sociais do governo. ?É o PAC e mais um conjunto de programas que o governo já pratica?, ressaltou. Ele respondia a uma manifestação ocorrida diante do Cietep, local do encontro, que reivindicava do governo a manutenção das verbas para a área social. Entre as pessoas que se pronunciaram, a cobrança maior foi da coordenadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns, que disse estar temerosa com possível corte de recursos na saúde.
?Temos investimentos previstos na habitação e saneamento, e só a saúde terá aumento de 8%, e educação aumentará acima da inflação, além dos investimentos no Bolsa Família. O PAC é uma combinação de ações nas áreas sociais e econômicas?, concluiu Mantega.
Ministério
A revelação política do encontro ficou por conta do ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro. Ele disse que o presidente Lula já tem os elementos necessários para desencadear a reforma ministerial na próxima semana, para dar sustentabilidade à agenda de votações do PAC, da reforma tributária. ?O presidente Lula tem um potencial apoio de quase dois terços da Câmara dos Deputados e uma maioria razoável no Senado. Se o presidente tiver de 70% a 80% em média dos votos originários da nossa bancada de coalização, ele vai ter uma estabilidade política extraordinária?, disse.
PAC deve beneficiar todos os segmentos da economia
| Foto: Chuniti Kawamura |
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| Zilda Arns: preocupação com o contingenciamento. |
Sobre os questionamentos dos benefícios do PAC para a agricultura, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, falou que o plano não foi voltado apenas para um setor, e diversos segmentos serão beneficiados. ?No conjunto de financiamentos teremos 170 novas usinas de etanol, mas com as discussões com os Estados Unidos isso poderá crescer ainda mais?, disse. Bernardo disse ainda que o governo está preparando um plano de safra, que será melhor que o do último ano, com mais créditos, principalmente para a agricultura familiar, e adiantou que estão trabalhando em conjunto com a Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar) em um programa de diversificação industrial que inclui recursos na ordem de R$ 7 bilhões através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Um dos pontos defendidos pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) foi a necessidade de investimentos na diversificação do setor industrial. A posição foi colocada pelo presidente da entidade, Rodrigo da Rocha Loures, que também defendeu a redução do câmbio. Loures se disse satisfeito com as posições apresentadas pelos ministros, principalmente pela divulgação, que o governo está preparando, de um programa voltado para a inovação tecnológica. ?Hoje, a inovação, é um dos principais instrumentos para a competitividade das empresas?, finalizou.
Mobilização pelos recursos para a área social
Rosângela Oliveira
Aproveitando a presença dos ministros em Curitiba, representantes de entidades que congregam o Conselho Nacional de Saúde fizeram uma manifestação contra o contingenciamento de recursos da saúde, que estaria previsto no PAC. O valor atingiria R$ 3,5 bilhões. A presidente da Pastoral da Criança e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, Zilda Arns, fez pessoalmente essa cobrança durante a reunião com o ministros.
?Acho que o desenvolvimento trará mais serviços para a saúde, pois teremos mais acidentes, mais traumas. Só um país que tem educação e saúde tem chances de atingir o desenvolvimento?, falou. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, confirmou que fizeram um contingenciamento nas contas na saúde, e disse que entende a posição de Zilda.
No entanto, garantiu que o governo tem uma reserva técnica de R$ 4 bilhões para aplicar no setor – que também pode incluir educação e segurança pública. ?Não precisa existir preocupação, pois vamos investir o suficiente e o que está garantido na Constituição?, afirmou.



