Não são apenas os impostos que pesam no bolso do brasileiro. Serviços como educação, saúde, previdência e segurança, que deveriam ser disponibilizados à população de maneira digna, também pesam no orçamento familiar. É o que revela o Estudo sobre os dias trabalhados para pagar tributos e a ineficiência governamental, divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT).  

Conforme o levantamento, o contribuinte brasileiro trabalhou, em média, até o dia 26 de maio somente para pagar tributos (impostos, taxas e contribuições), exigidos pelos governos federal, estadual e municipal. De 27 de maio a 25 de julho, o rendimento foi para pagar serviços que deveriam ser públicos, como saúde, educação e previdência. No caso da classe média, cujo rendimento mensal varia entre R$ 3 mil e R$ 10 mil, o comprometimento com estes serviços e com impostos é ainda maior: a tributação foi paga até 5 de junho e, entre 6 de junho e 29 de setembro, o rendimento vai para os gastos privados (ver quadro).

?Com a elevação dos gastos para os serviços privados em substituição aos serviços públicos, o cidadão de classe média só começará a trabalhar para comer, se vestir, morar, adquirir bens, gozar férias e fazer alguma poupança no dia 30 de setembro?, afirmou Gilberto Amaral, presidente do IBPT.

No caso dos serviços privados, é a educação que mais pesa no orçamento familiar, de acordo com a pesquisa, variando entre 5,77% e 13,29% conforme o rendimento mensal. Em seguida, aparece o gasto com a saúde, que chega a comprometer até 10,93% do orçamento de famílias que ganham entre R$ 3 mil e R$ 10 mil por mês e 9,01% para famílias que recebem acima de R$ 10 mil. A segurança ineficiente também leva o brasileiro a ter um gasto extra, comprometendo 7,71% do rendimento bruto de famílias com salário acima de R$ 10 mil. A preocupação em ter uma aposentadoria digna, sem depender unicamente do INSS, faz com que o brasileiro invista num plano de previdência complementar – o resultado, com isso, é que o gasto com previdência responda por 2,19% do rendimento da classe média, que recebe entre R$ 3 mil e R$ 10 mil por mês, e 4,49% para os que recebem mais de R$ 10 mil.

Impostos

Segundo o IBPT, em 2003 o contribuinte brasileiro teve que destinar 36,98% de seu rendimento bruto para pagar impostos. No ano passado, o salto foi para 39,72% e, para este ano, a expectativa é que o comprometimento com tributos atinja 40,01% do rendimento. Assim, o cidadão terá que trabalhar 4 meses e 26 dias para pagar a pesada carga tributária; na década de 70, eram necessários 2 meses e 16 dias.

Já os gastos com serviços como educação, plano de saúde, segurança, previdência privada e pedágio devem consumir cerca de 116 dias de um trabalhador brasileiro de classe média – ou 32% do orçamento. Na década de 70, o comprometimento com esses serviços era de apenas 7% da renda – ou 25 dias de trabalho.