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Quem trabalha com juros, vê os índices sempre com tendência de alta, mesmo
que a Selic seja reduzida.

Brasília – O cidadão brasileiro paga, em muitos casos, as maiores taxas de juros do mundo. Segundo pesquisa de janeiro de 2005 da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade, os brasileiros pagaram, em janeiro de 2005, 8,31% de juros de cheque especial ao mês (160,63% ao ano) e 6,21% mensais em média para os empréstimos pessoais (106% ao ano). Pessoas jurídicas também pagam juros altos no País: 4,18% ao mês para capital de giro, e 5,75% ao mês para conta garantida. Para se ter uma idéia, segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), no Brasil, tanto pessoas físicas como jurídicas gastam R$ 118 bilhões de reais por ano em juros.

Com essas taxas, o País continua entre aqueles que possuem os maiores spreads bancários do mundo. Spread é a diferença entre a taxa cobrada pelas instituições financeiras para emprestar dinheiro e a taxa que pagam para captar recursos. O spread brasileiro atingiu, em 2004, em média, 28,1 pontos percentuais (pp), de acordo com o Banco Central.

Em 2003, o País disputava com o Paraguai o título de campeão dos spreads altos. Segundo estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), baseado em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil estava em primeiro lugar, com um spread de 43,7 pontos percentuais ao ano – o maior entre 102 países pesquisados. De acordo com o cálculo do Banco Central, o spread à época seria de 31,9 pontos e o Brasil estaria em segundo, perdendo o lugar no topo do ranking para o Paraguai (37,6 pontos percentuais).

Outros países latino-americanos também apresentaram spreads bastante elevados, mas ainda menores do que no Brasil, de acordo com a pesquisa. É o caso da Argentina, com 15,4 pontos percentuais ao ano, da Bolívia com 13,6 pontos percentuais ao ano e da Venezuela com 12 pontos. A diferença é ainda maior se compararmos com o spread de países desenvolvidos como EUA, 3 pontos percentuais, Japão, 1,8 ponto e a área do Euro, com spread de 3,1 pp, todos ao ano, segundo o IEDI.

Isto significa que se um indivíduo adquiriu um empréstimo de R$ 500, em 2003, no Brasil, ele gerou uma arrecadação líquida para o banco, ou seja, gerou um spread de R$ 218,50. Mas se esse indivíduo tivesse feito um empréstimo, de mesmo valor e na mesma época, na Argentina ou no Japão, teria gerado um spread de R$ 77 e R$ 9, respectivamente.

Para o professor Marcos Cintra, vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas, o que compõe o spread bancário é o poder de mercado. ?Como a demanda é maior que a oferta no setor bancário brasileiro, que é centralizado e cartelizado, o valor do spread vai lá para o alto?. Segundo o professor, a concorrência entre os bancos no Brasil é muito fraca, porque agem de comum acordo, são oligopolistas e com isso detêm o poder de fixação de preços. ?A atuação da Febraban é muito questionável, pois os executivos de cada banco reúnem-se lá para traçar estratégias de mercado?, critica.

Já nos Estados Unidos, segundo Marcos Cintra, não existe um órgão que funcione como a Febraban, pois a concorrência entre os bancos é enorme, ?o que beneficia o consumidor?. ?Se dois presidentes de bancos são vistos almoçando juntos, já se abre um processo contra eles por suspeita de negociação comercial e conseqüentemente, de cartelização?, enfatiza Marcos.

O economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Roberto Luis Troster, afirma que a atuação da instituição é cooperativa e que não influencia na competitividade entre os bancos, que segundo ele é grande. ?Uma prova de que existe muita competitividade no setor bancário é o caso dos bancos estrangeiros, que chegaram cheios de expectativas ao Brasil e não obtiveram grandes resultados por aqui?, exemplifica.

Segundo o economista, para baixar o spread bancário no Brasil é preciso reduzir o compulsório (quantia recolhida dos bancos pelo BC para diminuir a liquidez do mercado), os impostos e os recursos direcionados ao crédito rural e imobiliário. Além disso, ?para os juros caírem, é necessário aumentar as garantias para quem fornece o crédito?, analisa.