A primeira fábrica do Brasil de curativos à base de pele de tilápia será instalada em Jaguaribara, no interior do Ceará. O empreendimento terá investimento inicial superior a R$ 52 milhões e pretende transformar um subproduto da piscicultura em biomaterial de uso médico. A construção deve começar entre outubro e novembro deste ano, com previsão de conclusão em até 12 meses. As informações são da Gazeta do Povo.
Do total previsto, o governo do Ceará aprovou até R$ 28 milhões para a construção da parte física. A estrutura terá ambientes controlados, sistemas de filtragem e controle do ar, pisos sanitários e instalações compatíveis com boas práticas de fabricação. A iniciativa privada ficará responsável por equipamentos, tecnologia, licenciamento, validação e operação. O Grupo Biotec faz parte do consórcio responsável pelo projeto industrial em conjunto com a Inova Medical.
A tecnologia foi desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal do Ceará (UFC). Nos estudos com pacientes que sofreram queimaduras de segundo grau, o curativo apresentou resultados superiores ao tratamento tradicional com pomada antibiótica em aspectos como dor e necessidade de trocas. A pele de tilápia liofilizada adere ao leito da ferida e permanece ali durante o processo de regeneração. Em tratamentos de até 20 dias, foram observadas no máximo três trocas, enquanto o tratamento convencional exige substituição frequente.
Pele de tilápia tem composição semelhante à humana
A pele do peixe apresenta mais de 90% do peso em colágeno do tipo 1, proteína também encontrada na pele humana. Os pesquisadores identificaram uma organização das fibras de colágeno que apresenta maior semelhança com a pele humana do que a observada na pele de porco, utilizada como biomaterial em alguns países. O professor Carlos Roberto Koscky, um dos inventores do curativo, explica que a escolha da tilápia se deu pela disponibilidade da matéria-prima. A tecnologia utiliza a pele limpa e tratada do peixe, que pode ser preparada de duas formas. A versão liofilizada, que está no centro do projeto industrial, pode ser armazenada em temperatura ambiente.
A capacidade inicial estimada é de cerca de 4 mil peles processadas por dia, com possibilidade de chegar a 12 mil. A empresa pretende inicialmente priorizar o mercado brasileiro, especialmente o Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo Bruno Braga, diretor de negócios do Grupo Biotec, o produto pode reduzir em 50% os custos de tratamento de queimados para o SUS, porque diminui a hotelaria, a necessidade de equipe médica e de trocas de curativos.
Anvisa ainda precisa aprovar produto e fábrica
O curativo ainda não está pronto para comercialização em larga escala. O material já passou pelas fases clínicas 1 e 2, mas ainda falta realizar a fase 3. A empresa terá de avaliar com a Anvisa se os estudos anteriores atendem integralmente às exigências para o registro do produto. A Anvisa também deverá fiscalizar a fábrica para garantir que o produto seja produzido com segurança.
A empresa já iniciou os procedimentos junto à Anvisa para o registro do produto. Depois de concluída a estrutura, serão realizados os primeiros lotes em boas práticas de fabricação. Esses lotes também serão utilizados no processo de registro. Já existem negociações avançadas com México, Portugal e Turquia, mas a prioridade inicial é atender o SUS.
