O avanço da inflação, aliado às incertezas que cercam um novo governo e o temor de uma guerra cambial, levaram o Brasil a registrar em janeiro deste ano o pior clima econômico em 18 meses. Analistas latino-americanos assumiram uma postura de “cautela” em relação ao cenário brasileiro, similar ao que ocorre com a avaliação sobre a economia latino-americana.

O Índice de Clima Econômico (ICE) da América Latina refletiu o compasso de espera e permaneceu estável de outubro de 2010 para janeiro deste ano, em 5,8 pontos – em uma escala de até nove pontos, onde respostas acima de cinco pontos são consideradas positivas. Já o Índice de Clima Econômico (ICE) do Brasil desacelerou levemente, de 6,8 para 6,7 pontos de outubro para janeiro.

Calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o instituto alemão IFO, o indicador é apurado com base em entrevistas com 143 especialistas em 18 países. Usa como base dados apurados pela Sondagem Econômica da América Latina.

Em três meses, o Brasil desceu da terceira para a quarta posição no ranking de clima econômico dos 11 países latino-americanos pesquisados. “Mas as pontuações do Brasil continuam acima de cinco pontos, ou seja, em cenário positivo”, comentou a coordenadora de projetos do Centro de Estudos do Setor Externo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Cesex-Ibre/FGV) Lia Valls.

O ICE foi apurado antes de o governo anunciar intenção de cortes de gastos. Lia não descartou que este anúncio possa ajudar a melhorar o resultado de clima econômico brasileiro, na próxima sondagem. Outro ponto levantado pela especialista é que o temor com o avanço da inflação não é privilégio brasileiro. “Com o aumento nos preços das commodities, há um temor generalizado no mundo com a inflação”, lembrou.

Mas a sondagem também mostrou que países latino-americanos exportadores de commodities, como o Brasil, temem as consequências de uma guerra cambial. Em tópico especial sobre câmbio, apurado pela sondagem, 92% dos entrevistados no Brasil, Colômbia, Chile e México apostam em “um mundo mais protecionista”. “Ninguém acha que continuar valorizando câmbio é bom, porque acaba afetando a indústria”, observou. Isso, em um longo prazo, pode conduzir a movimentos de substituição de produção por importações, na análise de Lia.

“Se não houver um rearranjo na questão do controle de capitais, para se diminuir desequilíbrios de entrada de capital, pode ser que todo mundo decida se proteger, com medidas protecionistas. Isso seria o pior cenário”, alertou. “Este tema cambial é uma das maiores preocupações da América Latina”, afirmou.