O Brasil registrou em julho de 2026 o primeiro déficit comercial de calçados desde 1997. As importações superaram as exportações em US$ 3,6 milhões, segundo a Secretaria do Comércio Exterior (Secex). A reversão do saldo positivo histórico resulta da pressão combinada do avanço de produtos asiáticos no mercado interno e das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre calçados brasileiros. As informações são da Gazeta do Povo.
O saldo acumulado em 12 meses ainda é positivo, mas caiu para US$ 276,3 milhões, o menor da série histórica. A Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados) aponta que a desaceleração econômica nos Estados Unidos e na Argentina, a volatilidade cambial e o aumento de barreiras protecionistas reduziram as exportações. No mercado interno, juros elevados e endividamento familiar contiveram o consumo e abriram espaço para importados.
A entidade estima que o avanço das importações impediu a criação de quase 8 mil postos de trabalho diretos no primeiro semestre de 2026. Dados do Ministério do Trabalho mostram que foram criados apenas 1,1 mil empregos com carteira assinada no período, queda de 86,9% em relação ao mesmo intervalo de 2025.
Tarifas americanas derrubam vendas para os Estados Unidos
As exportações para os Estados Unidos, principal destino e responsável por 20% das receitas externas do setor, caíram 24,9% nos sete primeiros meses de 2026, passando de US$ 135,1 milhões para US$ 101,5 milhões. Na Argentina, segundo maior comprador, o recuo foi de 60,3% no mesmo período.
O cenário piorou com a decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) de aplicar tarifa adicional de 25% em 22 de julho, seguida de mais 12,5% no dia seguinte, totalizando 37,5% de sobretaxa. A Abicalçados tentou reverter a medida em audiência em Washington no dia 7 de julho, mas não obteve sucesso.
Asiáticos dominam 80% das importações brasileiras de calçados
China, Vietnã e Indonésia responderam por mais de 80% dos pares importados pelo Brasil até julho de 2026. A China liderou em volume com 10 milhões de pares (US$ 31 milhões e preço médio de US$ 3,07), alta de 26,8% nos embarques. O Vietnã exportou US$ 181 milhões (8,3 milhões de pares) e a Indonésia somou US$ 86,23 milhões (4,78 milhões de pares).
A produção da indústria de couros, artigos de viagem e calçados encolheu 4,1% nos 12 meses concluídos em junho, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Rio Grande do Sul, maior exportador nacional em valor, registrou queda de 13,2% nas vendas externas no primeiro semestre. O Ceará, líder em volume, acumulou retração de 28% na receita de exportação e fechou 1,78 mil vagas.
