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Henrique Meirelles, do BC: reforma é processo complexo.

Melbourne – Austrália (AE) – O governo brasileiro se comprometeu com o grupo dos 20 países mais ricos e em desenvolvimento (G20) ?a continuar a garantir a estabilidade macroeconômica, implementar novas reformas microeconômicas, aumentar os investimentos em infra-estrutura e aprofundar os mercados financeiros domésticos.

Mas não sinalizou concretamente com a adoção de novas reformas estruturais, como, por exemplo, a Previdência Social, considerada pela maioria dos economistas um pré-requisito para uma melhora de sua performance fiscal, queda mais acelerada de taxas de juros e crescimento econômico maior no longo prazo.

Essa timidez no aceno de reformas estruturais reflete a visão predominante – mas não unânime – dentro do governo de que a obtenção de um crescimento econômico sustentado em torno dos 5% será possível através de maior estímulo aos investimentos por meio da desoneração tributária, melhora do marco regulatório, entre outras medidas.

Os compromissos assumidos pelo governo brasileiro constam da Agenda de Reformas do G20, divulgada domingo no encerramento da reunião das autoridades financeiras em Melbourne, na Austrália. Ela faz parte de um ?acordo? firmado pelos 20 países para discutir e promover políticas macroeconômicas e reformas que propiciem um crescimento sustentado em suas economias, com reflexos positivos para todo o mundo.

A Coréia do Sul, por exemplo, afirmou que sua política econômica vai se concentrar na elevação de seu crescimento potencial através de reformas estruturais. As prioridades estabelecidas pela China incluem o ?aprofundamento? da reforma fiscal, tributária e ?avanços? na reforma no sistema de previdência. O governo da Índia ressaltou a necessidade de investir mais em infra-estrutura e afirmou que pretende eliminar seu déficit fiscal até 2009.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, juntamente com representantes do Reino Unido e da Indonésia, fez uma palestra em um seminário do G20 dedicado às reformas econômicas no qual apresentou uma detalhada análise conceitual do tema, sob o ponto de vista global.

?A reforma econômica é um processo complexo, que toma tempo e que gera custos políticos?, disse. ?É, entretanto, necessária para as economias que pretendem progredir no atual ambiente de maior competitividade e de rápidas mudanças.

Meirelles ressaltou que, para ter êxito, a reforma precisa ter seus objetivos e custos explicados com total transparência à sociedade. ?Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, há freqüentemente uma maior necessidade de construção de consenso do que nas economias maduras?, disse.

O presidente do BC ressaltou que a agenda de reforma está sempre em transformação. ?No Brasil está na hora de se mover da agenda de estabilização macroeconômica, que é uma condição para o sucesso econômico, que faremos o máximo para proteger, para a tarefa de acelerar o crescimento, não em golfadas, mas num ritmo sustentado e constante, com ganhos rápidos na produtividade, da qual precisamos para reduzir mais a pobreza e a desigualdade?, disse Meirelles.

Países emergentes cobram mudança no FMI

Rio (AE) – Um grupo de países emergentes liderado por Brasil, Argentina, Índia e Egito vai pressionar o Fundo Monetário Internacional (FMI) a apresentar, já em sua reunião da primavera, em abril de 2007, propostas concretas para a reforma de seu sistema de cotas que determina o número de votos no comando do organismo multilateral.

Essa posição foi apresentada oficialmente pelo ministro das Finanças da Índia, Palaniappan Chidambaram, num seminário realizado anteontem, antes do encerramento da reunião do G20 (grupo dos países mais ricos e em desenvolvimento) sobre as instituições de Bretton Woods.

?Estamos cobrando da direção do FMI seus planos para as mudanças no regime de cotas e o calendário para isso?, disse, ao jornal O Estado de S.Paulo o secretário para Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Luiz Eduardo Melin, que representou o ministro Guido Mantega no evento, realizado em Melbourne (Austrália).

Além disso, os quatro países decidiram elaborar nos próximos meses o seu próprio pacote de propostas. ?Não aceitamos mudanças cosméticas, que não corrijam a enorme distorção no sistema de cotas.?

Na reunião anual do FMI, em setembro, o governo brasileiro e alguns outros países votaram contra o ?primeiro estágio? do plano de reformas do fundo, que elevou os votos de China, México, Coréia do Sul e Turquia. O segundo estágio prevê alteração mais abrangente do sistema. ?Somos a favor de qualquer mudança que aumente a participação dos países emergentes e pobres, refletindo a atual realidade da economia mundial?, disse Melin.

Segundo ele, o diretor-gerente do fundo, Rodrigo de Rato, demonstrou, durante a reunião em Melbourne, estar mais aberto ao diálogo. ?Em Cingapura, a direção do FMI havia adotado uma postura triunfalista pelo fato de sua proposta ter sido aprovada por cerca de 90% dos votos?, disse Melin. ?Mas o fato de países importantes, como o Brasil, Índia e Argentina, terem votado contra e mesmo assim a aprovação ter sido de 90% mostra como o sistema de cotas não é representativo.?

O comunicado final da reunião do G20 ressaltou a importância do processo de reforma do fundo, mas evitou sugerir prazos para a sua apresentação, refletindo a diferença de posições dos países. A reforma, diz a nota, precisa resultar numa ?fórmula de cotas nova, simples e transparente que capture as posições econômicas dos membros do FMI?.

BCs mostram preocupação com a inflação

Sydney (AE) – Os principais bancos centrais do mundo avaliam que a economia global vai continuar registrando um ?crescimento muito dinâmico? em 2007, apenas ligeiramente inferior ao deste ano, mas elevaram o tom de preocupação com as pressões inflacionárias em diversos países. ?Estamos vendo uma sucessão muito impressionante de anos marcados por forte expansão econômica, mas isso não pode permitir que fiquemos complacentes com os riscos?, disse o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, após o encerramento ontem, em Sydney, da reunião bimestral do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês). ?A inflação poderia criar um ambiente que não seria positivo para continuidade do crescimento.?

Trichet, que também preside o G10 (grupo que reúne os BCs dos países mais ricos), observou que a recente queda dos preços do petróleo é um fator positivo para a inflação mundial, mas poderá ser apenas temporária. ?O risco dos preços do petróleo subirem novamente não pode ser desconsiderado?, afirmou. Segundo ele, há indicações de que o impacto da elevação dos preços da commodity acumulada nos últimos anos ainda não foi sentido completamente nos preços aos consumidores. Trichet observou que os bancos centrais estão neste momento gerenciando as expectativas inflacionárias de uma forma ?concreta?, mas reiterou que ?não existe absolutamente espaço para complacência?. Segundo ele, essa avaliação se aplica inclusive à sua instituição, o BCE.

Os banqueiros centrais manifestaram também preocupação com a possibilidade de os riscos nos mercados financeiros estarem sendo subestimados no atual ambiente de forte liquidez internacional. ?Alguns indicadores mostram que os spreads dos mercados emergentes e dos ativos corporativos, além dos prêmios de seguros, estão muito baixos?, disse Trichet. ?Temos que entender mais esse fenômeno.?