Economia

Brasil enfrenta risco de crise de crédito com dívida pública em alta

Imagem mostra moedas e uma nota de R$ 2 em cima de uma mesa.
Decisões econômicas, inflação e mercado: entenda como os rumos da economia afetam o seu dia a dia. Foto: Pixabay / Luis Wilker.

O cenário de endividamento público crescente, taxas de juros elevadas e pressão sobre o crédito a famílias e empresas ameaça o Brasil com uma possível crise de financiamento. Especialistas alertam que a ausência de ajuste fiscal consistente pode levar bancos a restringir empréstimos e dificultar a rolagem de dívidas, ampliando os custos para consumidores e empresários. As informações são da Gazeta do Povo.

José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, avalia que a política econômica dos últimos quatro anos resultou em aumento da dívida pública, do déficit fiscal e do endividamento de famílias e do governo. Esse desequilíbrio pode tornar os bancos mais seletivos na concessão de crédito, especialmente se a deterioração das contas públicas mantiver os juros altos e elevar a percepção de risco sobre a economia brasileira.

Dados do Banco Central mostram que, em agosto, metade da renda anual das famílias estava comprometida com dívidas bancárias. Quase um terço da renda era destinado ao pagamento de parcelas e juros. O custo elevado do dinheiro também afeta as empresas, contribuindo para recordes de pedidos de recuperação judicial e falências. A Allianz Trade projeta que as insolvências de empresas no Brasil devem crescer até 2027.

Mercado cobra medidas e reage com volatilidade

Após o resultado eleitoral, o mercado financeiro passou a exigir do governo medidas concretas para recuperar a confiança dos investidores. As principais demandas incluem ajuste fiscal imediato, equipe econômica com autonomia e acordo de governabilidade com o Congresso Nacional. No primeiro pregão após a eleição, a Bolsa brasileira acionou o circuit breaker pela primeira vez em seis anos. O dólar comercial chegou a R$ 5,60, enquanto os juros futuros com vencimento em janeiro de 2029 atingiram 15,25% ao ano.

Roberto Motta, estrategista macro da Genial Investimentos, afirma que desta vez o presidente terá que contratar credibilidade, sem a mesma tolerância concedida no início do mandato anterior, em 2022. Sem uma âncora fiscal confiável, a Genial Investimentos projeta queda de cerca de 20% do Ibovespa até o fim de 2026. A Oby Capital estima que o dólar pode chegar a R$ 5,85 em 2027 e a R$ 6,85 até 2030.

Dívida pública e orçamento engessado limitam ajustes

A dívida pública bruta chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto em agosto de 2026. A Instituição Fiscal Independente do Senado projeta que o indicador alcance 86,4% do PIB no fim de 2027. Em um cenário sem mudanças na política fiscal, a dívida pode ultrapassar 100% do PIB até 2030. O problema é agravado pela rigidez do Orçamento federal: mais de 90% das despesas da União são obrigatórias.

O Projeto de Lei Orçamentária Anual enviado pelo governo ao Congresso prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões, equivalente a 0,13% do PIB. A IFI, porém, estima déficit de R$ 86,1 bilhões, ou 0,7% do PIB. A diferença de R$ 104,7 bilhões decorre principalmente de premissas mais conservadoras para a arrecadação. O governo ainda terá de lidar com uma herança estimada entre R$ 70 bilhões e R$ 90 bilhões em novos gastos e desonerações prometidos.

Para estabilizar a dívida, analistas apontam que o país precisaria manter superávits primários entre 1% e 2,5% do PIB. Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria, afirma que, com juros reais de 5%, seria necessário um superávit de 2,5% do PIB para ancorar a dívida. Cássio Viana de Jesus, diretor de investimentos da Pilar Capital, alerta que sem compromisso efetivo com a sustentabilidade fiscal, os investidores poderão exigir prêmios de risco mais elevados, pressionando a curva de juros e comprometendo as perspectivas de crescimento.

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