Lula determinou estudos sobre o assunto.

Os governos do Brasil e da China iniciaram conversações, durante a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva àquele país, para um possível acordo de cooperação nuclear que contemple a venda de urânio não enriquecido brasileiro para abastecer as usinas nucleares chinesas. O objetivo do Brasil é o de obter recursos para viabilizar o seu próprio programa nuclear.

A partida para essa negociação foi dada numa conversa entre o ministro da Ciência e Tecnologia brasileiro, Eduardo Campos, e autoridades chinesas responsáveis pelas áreas espacial e nuclear. Ficou acertada uma nova reunião em agosto, no Brasil, com o objetivo de aprofundar as discussões.

“O Brasil precisa encontrar maneiras de viabilizar financeiramente seu programa nuclear em curto espaço de tempo”, afirmou Eduardo Campos.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que, em 90 dias, seja apresentado a ele um relatório, a partir de análises detalhadas envolvendo diversos ministérios, com propostas para salvar o programa nuclear brasileiro. Uma das propostas a serem estudadas é a parceria com a China na área nuclear. “Se for mantido o padrão de investimento dos últimos 10 a 15 anos, o programa se inviabiliza”, diz Eduardo Campos.

Segundo o ministro, o interesse do Brasil, ao admitir a possibilidade de vender urânio não enriquecido à China, é o de participar, através da Nuclep, na construção de 11 usinas siderúrgicas que o país irá fazer nos próximos anos. A energia é um dos maiores problemas da China e se constitui num dos principais gargalos para se manter crescendo nas taxas atuais, de cerca de 9,5% ao ano.

Problemas

O secretário estadual do Meio Ambiente, físico José Goldemberg, disse ontem que se for confirmada a informação de que o governo brasileiro pretende comercializar com a China as centrífugas de processamento de urânio, desenvolvidas com tecnologia nacional, isso poderá causar problemas internacionais para o País, colocando-o sob pressão dos Estados Unidos e da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Goldemberg lembrou que o Brasil é signatário de vários acordos internacionais que garantem o uso pacífico da energia nuclear. “Mas é bom que o País não tome nenhuma atitude que possa colocá-lo em suspeição”, alertou. Ele ressaltou, no entanto, que é necessário esperar a concretização das negociações para uma avaliação final do possível acordo.

Quanto à venda de urânio bruto, conforme foi mencionado pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, o secretário estadual do Meio Ambiente acredita que não há problema algum. “O Brasil tem grandes reservas de urânio natural e vender o produto bruto é o mesmo que exportar uma commodity”, exemplificou.

Empresas fecham acordos comerciais

Muitos empresários encararam a missão empresarial à China como um primeiro contato de negócios, mas pelo menos 14 atos comerciais entre empresas brasileiras e chinesas foram fechados no primeiro dia da visita, logo após o seminário empresarial realizado no hotel Beijing International, em Pequim.

Na briga pelos novos negócios, saiu na frente quem já tinha algum relacionamento com a China. Foi o caso da Vale do Rio Doce, que despontou como a empresa que mais fechou acordos com companhias chinesas. O presidente da maior mineradora da América Latina, Roger Agnelli, fechou uma parceria com a estatal chinesa Baosteel para a construção de parte do projeto do pólo siderúrgico de São Luís para produção de 3,8 milhões de toneladas de aço por ano. A China, por sua vez, vai desenvolver um projeto de produção de carvão para exportação para o Brasil.

A Vale vai implementar um linha de transporte marítimo entre os dois países, fechar uma parceria com o Yankuang Group para desenvolvimento de projeto de produção de carvão industrial (coque) para uso nos dois países e fechar um acordo de cooperação com as empresas Baosteel e Yongcheng para o processamento e venda de carvão.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Furlan, leu para a platéia de empresários uma lista de 14 acordos comerciais, que vão da carta de intenções firmada entre a Varig e a Air China para a operação de vôos regulares entre os dois países até acordos para a venda de café solúvel, para o estabelecimento de parcerias em telefonia celular entre os dois continentes e até a troca de experiências entre a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e sua parceria na China, a China Enterprise Confederation.

Lula fala com estudantes

Uma relação bilateral verdadeiramente sólida não pode basear-se apenas na interação entre governos, ela deve atingir as sociedades e os indivíduos, mobilizar as mentes e despertar emoções, disse ontem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a cerca de 270 estudantes e professores da Universidade de Pequim (UP), uma das mais importantes instituições de ensino da Ásia. Em seu último dia na capital chinesa, Lula inaugurou o Núcleo de Cultura Brasileira da Universidade de Pequim e, na seqüência, falou por 40 minutos sobre “Política Externa Brasileira no Século XXI e o Papel da Parceria Estratégica Sino-Brasileira”. Entre os dois eventos, o presidente plantou um pinheiro chinês, símbolo de boa sorte, nos belíssimos jardins da tradicional universidade.

Em seu discurso, Lula fez um resumo dos compromissos de governo e relatou experiências como o Bolsa-Família, que vincula a transferência de renda à participação das famílias beneficiadas em programas de saúde, educação e segurança alimentar. Até 2006, o programa deverá beneficiar 11,4 milhões de famílias. “Assumi o governo brasileiro com o compromisso de dar prioridade às políticas de inclusão social”, sintetizou o presidente. Lula seguiu seu pronunciamento dizendo que as mesmas preocupações refletem-se na esfera internacional, onde a prioridade é a construção de uma ordem mundial mais justa e democrática. “Queremos relações econômico-comerciais sem as distorções que prejudicam os países em desenvolvimento”, afirmou.

Para Lula, a fome e a miséria – problemas que afligem grande parte da humanidade – devem entrar imediatamente na pauta internacional. “A redução da fome e da pobreza requer uma mudança de atitude por parte dos governos. A fome, até agora um problema social, deve transformar-se em problema político”, enfatizou. O presidente falou de algumas iniciativas nesse sentido, como o programa de ação lançado em janeiro com os presidentes da França e do Chile e com as Nações Unidas, com o objetivo de identificar e promover fontes de financiamento para a erradicação da fome e da pobreza.

Comitiva segue para Xangai

Após as atividades na Universidade de Pequim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seguiu, acompanhado por ministros, governadores e parlamentares brasileiros, para o Museu Imperial da Cidade Proibida. Lá, na companhia da primeira-dama Marisa Letícia da Silva, inaugurou a mostra de arte indígena “Amazônia: Tradições Nativas”, promovida pela Brasil Connects. É a primeira exposição brasileira na Cidade Proibida, antiga residência imperial das dinastias Ming e Qing.

Da Cidade Proibida, o presidente e comitiva seguiram para o aeroporto, de onde embarcaram para Xangai, o centro financeiro da China.

Hoje, Lula participará de uma conferência do Banco Mundial sobre combate à pobreza e em seguida encerrará o seminário “Brasil-China, uma parceria de sucesso”.