Rio  – Quando 22 países em desenvolvimento, sob a coordenação do Brasil, decidiram criar em setembro, em Cancún, no México, o G-22, com o objetivo de se opor à proposta comercial que os países ricos tentam impor, muitos diplomatas jocosamente chamaram o grupo de uma “festa de pobres”. O tom de galhofa só baixou quando a diplomacia mundial percebeu que aquele grupo liderado por três países que reúnem metade da população do planeta – Brasil, China e Índia – não estava disposto a negociar, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), apenas o que os países ricos consideravam prioridade.

De lá para cá, ficou a pergunta: mas afinal, quem são exatamente esses países que, com exceção de suas dimensões continentais, possuem tão pouca coisa em comum? Ledo engano, dizem os especialistas.

– China, Índia e Brasil têm mais pontos de proximidade do que imaginamos. São três países em desenvolvimento de grande extensão territorial e com estruturas produtivas muito diversificadas – diz Carlos Aguiar de Medeiros, professor do Instituto de Economia da UFRJ.

– E, ainda que a China seja uma potência exportadora, todo o centro de gravidade das decisões governamentais é o gigantesco mercado interno dos três.

De fato, dos cerca de 2,5 bilhões de habitantes dos três países, a maioria se encontra nas camadas menos favorecidas e, portanto, um mercado consumidor em potencial caso as políticas adotadas pelos governos criem empregos e renda para essas populações.

– A preocupação em aumentar a renda da população nesses países é quase uma obsessão – observa o ex-ministro da Agricultura Marcus Vinicius Pratini de Moraes.

Não é à toa, dessa forma, que os três países sejam o destino de boa parte dos investimentos globais nos últimos 20 anos.

Somente entre 1998 e 2002, a China recebeu US$ 214 bilhões em investimentos diretos e o Brasil, US$ 132 bilhões. No caso da Índia, a mais fechada das três economias, o fluxo ainda é pequeno, mas já deve ultrapassar os US$ 5 bilhões este ano, na esteira da expansão recorde (em termos mundiais) de setores como telecomunicações e motocicletas.

Medeiros afirma que, ao contrário do que pregam alguns analistas financeiros, Brasil, China e Índia não dependem da expansão da economia mundial para conseguir expressivo crescimento interno.

– Países como Irlanda e Taiwan, que possuem um altíssimo peso das suas exportações nos seus Produtos Internos Brutos (PIB), dependem que o mundo cresça para que suas economias cresçam. Mas a característica comum dos países grandes, como China, Índia e Brasil, é a dependência do crescimento de seu mercado interno. A China e a Índia mantêm altas taxas de crescimento hoje, num momento em que tanto EUA quanto Europa patinam. E mesmo o pulo das exportações brasileiras, se diminui os problemas do País, não garante o salto no crescimento que o País teria se garantisse renda para a sua população – diz.

O peso das exportações no PIB brasileiro é de 13,4%. O da Índia, 6,6%. E o da China, 22,33%. Enquanto a economia chinesa deve crescer 9% este ano, a indiana projeta uma alta de 7% e a brasileira, apenas 0,6% – mas o ritmo deve acelerar a partir de 2004.

Outro ponto em comum é a existência de uma indústria de base forte, diferentemente de outras nações em desenvolvimento, o que garante matéria-prima e equipamentos para um crescimento mais acelerado quando estimulado o consumo, diz o professor.

Também é importante o fato de China, Brasil e Índia contarem com grande capacidade de financiamento por parte do setor público, o que pode garantir crédito para o desenvolvimento mesmo em épocas de má vontade dos investidores estrangeiros. Segundo Luiz Carlos Prado, professor da UFRJ, isso é verdade mesmo para um Estado endividado como o brasileiro. Basta ver a expansão do setor nacional de máquinas e equipamentos agrícolas nos últimos anos, que está por trás do desempenho exemplar do agribusiness verde-e-amarelo.

– Se tivermos políticas industriais seletivas, como algumas tocadas pelo BNDES, a questão é o melhor uso dos recursos e o estímulo ao investimento privado – diz.

Armando Castellar, do Ipea, lembra que, unidas, essas vantagens internas são um trunfo. Mas o poder de fogo será maior se os emergentes entenderem que negociando entre si aumentarão suas exportações, sua independência e forçarão a abertura dos mais ricos.

Foco nos temas comerciais

A união de forças de Brasil, China e Índia – e dos outros membros do G-22 – tem um foco principal nas conversações da Organização Mundial de Comércio (OMC): fazer com que as conversas da atual rodada de negociação se concentrem nos temas comerciais. Ampliar a discussão para assuntos como propriedade intelectual ou defesa do meio ambiente, explica Carlos Aguiar de Medeiros, da UFRJ, é tudo que os três países não querem. Até porque, no atual estágio de desenvolvimento desses países, a prioridade é conseguir maior abertura comercial e menos subsídios dos ricos e, em conseqüência, vender mais. Além disso, pesam especificamente outras estratégias subliminares, até geopolíticas. A China, por exemplo, busca ganhar mais legitimidade e peso na OMC para reduzir a oposição a seus planos de anexação de Taiwan, o mesmo valendo para a Índia em relação à Caxemira. O Brasil, por sua vez, quer mostrar força e ganhar aliados no seu eterno pleito de entrar como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Seria bastante conveniente nos planos de reforma da ONU ter como aliados dois gigantes do mundo em desenvolvimento – um deles, a China, membro permanente do Conselho de Segurança.

– Os três países estão unidos por um projeto amplo de longo prazo, que é econômico e geopolítico. E, a curto prazo, o esforço é evitar uma nova Rodada do Uruguai (da OMC, em 1994), que não levou a nenhum avanço ou comprometimento dos países ricos. Prevalece agora a mesma lógica do Brasil com o Mercosul nas negociações da Alca: em bloco você é mais forte – diz Armando Castellar, do Ipea.

Também une os três países a cautela em relação às decisões sobre abertura do mercado de serviços (que engloba compras governamentais, atividades financeiras, transporte, entre outros) e à proibição da adoção de políticas industriais seletivas. A diferença de custos ainda é tão grande entre países desenvolvidos e em desenvolvimento que uma abertura comercial pouco calibrada pode destruir as empresas nacionais ou expor o setor financeiro a desequilíbrios.