Empresas não financeiras de países emergentes estão usando cada vez mais as filiais no exterior para conseguir crédito via emissão de dívida. A tendência cresceu nos últimos anos e começa a chamar atenção do Banco de Compensações Internacionais (BIS). Para a instituição, essa busca de financiamento via filiais pode se tornar um problema e ter “implicações financeiras” para países emergentes. Um dos riscos é que o endividamento das empresas e dos países emergentes seja efetivamente muito maior que o calculado atualmente. Outro problema é que recursos carimbados como “Investimento Estrangeiro Direto” (IED) possam ter como destino operações financeiras e a não atividade real.

Relatório divulgado neste domingo pelo BIS revela atenção do BIS para o financiamento das empresas emergentes. Em meio a um cenário de grande liquidez internacional, estudo dos economistas do BIS Stefan Avdjiev, Michael Chui e Hyun Song Shin – que é chefe do Departamento de Pesquisa da casa – destaca o fenômeno de emissão de dívida de companhias emergentes nos mercados internacionais. Entre 2009 e 2013, empresas emergentes não financeiras emitiram US$ 554 bilhões em dívida internacional. Cerca de metade desse montante – de US$ 252 bilhões – foi via filiais no exterior, diz o BIS.

Para os pesquisadores, os dados trazem “evidência de que as subsidiárias estrangeiras de empresas emergentes não financeiras estão atuando cada vez mais como intermediários substitutos ao obter fundos de investidores globais através de emissão de bônus e repatriar os proventos para a sede”. Em países como a China, existiria US$ 1 emitido em dívida não bancária para cada US$ 3 em crédito bancário. O estudo alerta que, diante desse cenário, “o cálculo da dívida externa baseada no princípio de residência pode ser problemático”.

A preocupação do BIS trata da real exposição que empresas têm à dívida externa e eventual vulnerabilidade dos países emergentes a esse tema. Isso acontece porque o aumento da atividade das filiais como captadores de recursos nem sempre aparece adequadamente nos resultados corporativos e no balanço de pagamentos dos países.

Os pesquisadores do BIS notam que há casos em que recursos são transferidos entre filial e sede e, de acordo com as atuais regras, são classificados como “Investimento Direto Estrangeiro”. Mas, apesar da classificação, o dinheiro poderia ser alocado em investimento financeiro de curto prazo pela matriz.

Há a percepção de que o fenômeno está mudando a “natureza da vulnerabilidade” relacionada à dívida externa. Enquanto na crise de 2008 o grande problema foi gerado pelos problemas do setor bancário, o novo fenômeno aponta para uma vulnerabilidade “não bancária”. Isso ocorre porque os créditos tomados no exterior são feitos diretamente pelas empresas com a emissão de dívida – o que reduz os controles que existem em operações como o crédito bancário.

Há ainda preocupação sobre eventual divergência entre as receitas e obrigações dos tomadores de crédito, já que a maioria dos empréstimos é feita em moeda estrangeira, mas normalmente as receitas das empresas são em moeda local. Em um momento como o atual – de normalização da política monetária dos Estados Unidos e fortalecimento do dólar – as dívidas em dólar tendem a ficar ainda maiores na moeda local.

O estudo publicado dentro do relatório trimestral da entidade nota que essas transferências de filiais para matriz podem utilizar três canais: 1) diretamente para a matriz (fluxo intracompanhia), 2) crédito para empresa não relacionada (fluxo intercompanhia) e 3) depósito bancário internacional (fluxo de depósito corporativo). “O fluxo de capital internacional para emergentes relacionado a essas três operações aumentou consideravelmente nos últimos anos. A ampliação desses fluxos foi dominada mais por operações financeiras que por atividades reais, o que pode aumentar a preocupação sobre estabilidade financeira.”

Diante das várias possibilidades de transferência dos recursos de volta para a matriz, o estudo reconhece que “a dívida externa calculada pelo conceito de residência pode subestimar a real exposição econômica de uma empresa que emprestou via filial”. “Se a sede da empresa ofereceu garantias ao crédito tomado pela filial, então a dívida da subsidiária deveria ser devidamente parte do cálculo global de dívida da empresa”, diz o texto. O procedimento, porém, não necessariamente é usado pelas companhias.