Um dos principais argumentos dos defensores de uma postura mais agressiva do Banco Central na política monetária, a pesquisa Focus, feita semanalmente pelo BC e que revela as expectativas do mercado para a inflação e outros indicadores, é alvo de questionamentos de economistas de dentro e fora do governo.

A principal reclamação é de que o levantamento mostra apenas a visão do mercado financeiro, deixando fora outros segmentos da sociedade. Isso, na visão dos críticos, coloca um viés pró juros altos nas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), que leva em conta as expectativas de mercado para tomar decisões.

Embora não estejam muito avançados, aperfeiçoamentos na Focus estão sendo estudados pelo BC, segundo apurou o Estado. Uma das ideias, por exemplo, é incluir na pesquisa projeções feitas por acadêmicos.

A preocupação com o formato da Focus ficou mais aguçada diante do fato de que nas últimas 12 semanas a estimativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), referência para o sistema de metas de inflação no Brasil, em 2011 tem subido sem interrupções, situando-se atualmente em 5,8%.

Diante desse quadro, muitos economistas do mercado financeiro consideravam que o BC deveria agir com mais força e subir a taxa Selic em 0,75 ponto porcentual. Tal visão, que inclusive era de parte dos que apostaram em alta de 0,5 ponto porcentual, confirmada pelo Copom na quarta-feira da semana passada , é de que a autoridade monetária não pode deixar as expectativas subirem tanto, sob pena de alimentar o processo de remarcação de preços.

Embora ainda considere bastante a Focus, o BC tem dado sinais de que hoje põe um peso menor da pesquisa em seu processo de tomada de decisões. A avaliação da autoridade, segundo uma fonte, é que as expectativas têm sido muito influenciadas pela inflação corrente e que os índices de preços e as previsões do mercado vão cair ao longo do tempo, principalmente no segundo semestre, respondendo ao conjunto amplo de ações adotadas pelo governo – além da alta dos juros, o aperto nas condições de crédito e de oferta de dinheiro, e uma política fiscal mais restritiva.

REFÉM

Segundo uma fonte do governo, um dos problemas da Focus é que grande parte das instituições consultadas não estaria preparada para fazer avaliações aprofundadas. “São poucas instituições que têm condições de antecipar uma mudança importante de um indicador, como inflação”, disse. O integrante do governo considera que, diante desse quadro, o “comportamento de manada” no mercado fica reforçado. Também há críticas de cunho mais ideológico.

Muitos no governo acreditam que o mercado “cria” ou “amplifica” um problema pela Focus para que o BC reaja com mais juros. Esse grupo acha que a pesquisa torna o BC ainda mais refém do mercado e crê que a solução então seria o BC não usar essas previsões ou dar pouco peso a elas.

O economista e consultor Amir Khair é um dos críticos mais duros do atual formato da Focus. “É muito estranho o BC só ouvir o mercado financeiro. É preciso olhar o País todo. Esse segmento do mercado tem interesse na Selic elevada, pois isso representa ganho fácil para os bancos”, disse Khair.

Na visão dele, para haver maior confiabilidade das expectativas de inflação coletadas pelo BC seria necessário maior concorrência, com a participação de setores da economia real (entidades do setor industrial, comércio, serviços, etc.) e também de institutos que acompanham inflação, como Fipe, IBGE e FGV.

O ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas reconhece a importância da Focus, mas avalia que ela de fato poderia ser ampliada. Ele lembra que nos Estados Unidos há pesquisas semelhantes com uma amostragem bem maior – a Universidade de Michigan, segundo ele, consulta mais de cinco mil agentes econômicos.

De qualquer forma, Freitas destaca que a Focus recentemente tem acertado mais que o BC. Segundo ele, no ano passado a pesquisa já mostrava uma tendência de piora na inflação e a autoridade monetária, baseada na inflação corrente de meados de 2010, resolveu mesmo assim parar de subir os juros

POUCO INTERESSE

O professor da USP Fábio Kanczuc afirmou que o BC já tentou ampliar a Focus com economistas de empresas e universidades, mas não houve muito interesse. Segundo ele, as empresas usam as projeções de consultorias e bancos, o que, no final das contas, acaba reforçando a necessidade de se produzir pesquisas bem apuradas. O professor considera que o BC recentemente partiu para uma estratégia de desqualificar um pouco a Focus, alegando o excessivo peso dado à inflação corrente, mas Kanczuc não vê “razão boa para isso”.

O economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero, afirmou que a Focus é um importante canal de transmissão das expectativas de inflação para a economia real. “Certo ou errado (a previsão) tem importância para a economia real”, disse.

“Se o mercado se convencer que a inflação vai ser na meta, a expectativa de inflação vai refletir isso e será transmitido para a economia real. Ficará mais fácil para o BC, ele terá que subir menos juros”, acrescentou, destacando que o BC já fez sondagens com representantes da economia real. “Sabe o que eles descobriram? que eles seguem a Focus”, concluiu.

08/03/2011 17:45 – NG/EC/BC/FOCUS/MUDANÇA

BC estuda ampliar Focus para incluir opinião acadêmica

Por Fabio Graner e Adriana Fernandes

Brasília, 08 (AE) – Um dos principais argumentos dos defensores de uma postura mais agressiva do Banco Central na política monetária, a pesquisa Focus, feita semanalmente pelo BC e que revela as expectativas do mercado para a inflação e outros indicadores, é alvo de questionamentos de economistas de dentro e fora do governo.

A principal reclamação é de que o levantamento mostra apenas a visão do mercado financeiro, deixando fora outros segmentos da sociedade. Isso, na visão dos críticos, coloca um viés pró juros altos nas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), que leva em conta as expectativas de mercado para tomar decisões. Embora não estejam muito avançados, aperfeiçoamentos na Focus estão sendo estudados pelo BC, segundo apurou o Estado. Uma das ideias, por exemplo, é incluir na pesquisa projeções feitas por acadêmicos.

A preocupação com o formato da Focus ficou mais aguçada diante do fato de que nas últimas 12 semanas a estimativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), referência para o sistema de metas de inflação no Brasil, em 2011 tem subido sem interrupções, situando-se atualmente em 5,8%. Diante desse quadro, muitos economistas do mercado financeiro consideravam que o BC deveria agir com mais força e subir a taxa Selic em 0,75 ponto porcentual. Tal visão, que inclusive era de parte dos que apostaram em alta de 0,5 ponto porcentual, confirmada pelo Copom na quarta-feira da semana passada , é de que a autoridade monetária não pode deixar as expectativas subirem tanto, sob pena de alimentar o processo de remarcação de preços.

Embora ainda considere bastante a Focus, o BC tem dado sinais de que hoje põe um peso menor da pesquisa em seu processo de tomada de decisões. A avaliação da autoridade, segundo uma fonte, é que as expectativas têm sido muito influenciadas pela inflação corrente e que os índices de preços e as previsões do mercado vão cair ao longo do tempo, principalmente no segundo semestre, respondendo ao conjunto amplo de ações adotadas pelo governo – além da alta dos juros, o aperto nas condições de crédito e de oferta de dinheiro, e uma política fiscal mais restritiva.

REFÉM – Segundo uma fonte do governo, um dos problemas da Focus é que grande parte das instituições consultadas não estaria preparada para fazer avaliações aprofundadas. “São poucas instituições que têm condições de antecipar uma mudança importante de um indicador, como inflação”, disse. O integrante do governo considera que, diante desse quadro, o “comportamento de manada” no mercado fica reforçado. Também há críticas de cunho mais ideológico. Muitos no governo acreditam que o mercado “cria” ou “amplifica” um problema pela Focus para que o BC reaja com mais juros. Esse grupo acha que a pesquisa torna o BC ainda mais refém do mercado e crê que a solução então seria o BC não usar essas previsões ou dar pouco peso a elas.

O economista e consultor Amir Khair é um dos críticos mais duros do atual formato da Focus. “É muito estranho o BC só ouvir o mercado financeiro. É preciso olhar o País todo. Esse segmento do mercado tem interesse na Selic elevada, pois isso representa ganho fácil para os bancos”, disse Khair. Na visão dele, para haver maior confiabilidade das expectativas de inflação coletadas pelo BC seria necessário maior concorrência, com a participação de setores da economia real (entidades do setor industrial, comércio, serviços, etc.) e também de institutos que acompanham inflação, como Fipe, IBGE e FGV.

O ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas reconhece a importância da Focus, mas avalia que ela de fato poderia ser ampliada. Ele lembra que nos Estados Unidos há pesquisas semelhantes com uma amostragem bem maior – a Universidade de Michigan, segundo ele, consulta mais de cinco mil agentes econômicos. De qualquer forma, Freitas destaca que a Focus recentemente tem acertado mais que o BC. Segundo ele, no ano passado a pesquisa já mostrava uma tendência de piora na inflação e a autoridade monetária, baseada na inflação corrente de meados de 2010, resolveu mesmo assim parar de subir os juros

POUCO INTERESSE – O professor da USP Fábio Kanczuc afirmou que o BC já tentou ampliar a Focus com economistas de empresas e universidades, mas não houve muito interesse. Segundo ele, as empresas usam as projeções de consultorias e bancos, o que, no final das contas, acaba reforçando a necessidade de se produzir pesquisas bem apuradas. O professor considera que o BC recentemente partiu para uma estratégia de desqualificar um pouco a Focus, alegando o excessivo peso dado à inflação corrente, mas Kanczuc não vê “razão boa para isso”.

O economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero, afirmou que a Focus é um importante canal de transmissão das expectativas de inflação para a economia real. “Certo ou errado (a previsão) tem importância para a economia real”, disse. “Se o mercado se convencer que a inflação vai ser na meta, a expectativa de inflação vai refletir isso e será transmitido para a economia real. Ficará mais fácil para o BC, ele terá que subir menos juros”, acrescentou, destacando que o BC já fez sondagens com representantes da economia real. “Sabe o que eles descobriram? que eles seguem a Focus”, concluiu.