Apesar de não ter conseguido cumprir sua missão de manter a inflação dentro dos limites de tolerância, o Banco Central afirmou no documento em que explica o porquê de o IPCA ter atingido 10,67% ao fim de 2015 que cabe à política monetária manter-se “especialmente vigilante” para garantir que pressões de curto prazo não se propaguem para horizontes mais longos. Em todo o documento, ele usou três vezes a expressão “vigilante”, sendo que apenas no parágrafo 16 ele deu ênfase ao usar o termo “especialmente”.

Em linha com essa postura “vigilante”, a instituição lembrou que iniciou

no segundo trimestre de 2013 um ciclo de aperto monetário que alcançou 4,5 pontos porcentuais até o final de 2014. Essa postura de política monetária continuou em 2015, totalizando 7 pontos porcentuais de alta. O BC ainda explicou que o movimento de alta ao longo de 2014 e 2015 teve como objetivo evitar que os ajustes de preços (administrados frente a livres e alta do dólar) contaminassem “horizontes mais longos”. “Assim, a política monetária manteve-se ativa para conter os efeitos de segunda ordem resultantes desses processos”, diz a instituição, em um trecho do documento.

A carta ainda relata, entre os parágrafos 18 e 28, que o trabalho do BC se pautou pelas expectativas dos agentes, que vinham respondendo à alta dos juros iniciada ainda em 2013. No entanto, relata o BC no parágrafo 24, em julho do ano passado o anúncio de alterações nas trajetórias para as variáveis fiscais afetou as expectativas de inflação e os preços de ativos. “Assim, diante do compromisso com o regime de metas para a inflação, o Banco Central pautou sua atuação na avaliação do comportamento futuro da inflação e sua convergência para a meta, agindo preventivamente”, disse a instituição na carta.

O BC explicou ainda que a política monetária é afetada por uma série de mecanismos “endógenos e compensatórios” e que tem impacto para a demanda agregada. A autoridade monetária cita a desvalorização da taxa de câmbio (alta do dólar frente o real) como um desses mecanismos que alteraram a composição da demanda agregada. A instituição lista ainda a forte alta nas taxas de juros de mercado ocorrida após o anúncio da redução das metas fiscais em julho.

Apesar de admitir que esses “mecanismos” afetam a política monetária, o BC frisou no documento que cabe à autoridade monetária considerar essas situações em suas decisões, além de “manter-se vigilante”.

“O Banco Central entende que o processo de ajuste macroeconômico em curso, intensificado por eventos não econômicos, contribuirá para uma dinâmica menos pressionada da inflação, ao auxiliar na quebra da resiliência de preços”, escreveu em carta aberta divulgada nesta noite.

Segundo o documento, medidas convencionais de hiato do produto encontram-se em território desinflacionário, em linha com a evolução recente da atividade – menores que as estimativas de crescimento potencial da economia. “Considerando as perspectivas de crescimento, o Banco Central avalia que nos próximos trimestres essas medidas de hiato tendem a permanecer em território desinflacionário”, previu.

Além disso, segundo ele, em 2016, a inflação mensal mais alta cederá lugar a valores que “refletirão melhor” o estado corrente das condições monetárias, levando a um “processo desinflacionário significativo”.

O presidente do BC, Alexandre Tombini, cita no documento que contribuirão nesse processo de desinflação as trajetórias esperadas para os preços administrados, mais favoráveis que as verificadas em 2015. Ele também aponta a redução esperada da inflação do setor de serviços, que deve ser influenciada pelos efeitos da abertura do hiato do produto e pela desaceleração do rendimento real.