A baixa renda deu uma injeção de ânimo nos planos dos fabricantes de produtos de higiene pessoal. Pela primeira vez, esse segmento puxou as vendas do setor, que inclui ainda os cosméticos, tradicionais líderes no comércio, e a perfumaria. Segundo cálculos preliminares da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), as vendas da indústria no primeiro semestre aumentaram 18%, em boa parte por conta da procura cada vez maior por sabonetes, xampus, desodorantes e absorventes higiênicos. A conclusão, segundo o presidente da entidade, João Carlos Basílio da Silva, é que a baixa renda, com uma sobra de caixa, tem investido mais nesses produtos. Segundo ele, não só aumentou a frequência de uso, como partiu para marcas mais caras.

Para a indústria, o momento é muito bom. Na avaliação do presidente da subsidiária brasileira da Procter & Gamble, Tarek Farahat, o crescimento do consumo na classe C tem a ver, além do crescimento da renda, com o aumento, nos últimos anos, dos investimento da indústria em tecnologia. “Há quatro anos o consumidor da baixa renda só encontrava o xampu na faixa dos R$ 3 a R$ 5. Hoje, com a melhora do poder aquisitivo, ele encontra mais opções, também na faixa dos R$ 5, dos R$ 10, e com muito mais tecnologia, seja qual for o preço”, diz.

Segundo Moacir Sanini, diretor superintendente da divisão de higiene e beleza do grupo Bertin, dono de marcas como OX, Neutrox, Francis e Hydratta, o crescimento do segmento é “espantoso”. O executivo não dá detalhes sobre o faturamento, mas diz que foi maior que a taxa verificada pela Abihpec. Para aproveitar a boa fase, a empresa tem investido em pesquisas em todo o País para adequar os produtos a esses novos consumidores. “Com esses clientes, é muito importante acompanhar bem de perto o que eles estão buscando”, diz.

Também atenta a esse movimento, a Unilever investiu nos últimos anos na remodelagem de embalagens para baratear alguns produtos. É o caso de parte da linha de desodorantes das marcas Axe e Rexona. Como alternativa, a multinacional decidiu oferecer versões econômicas, com o tamanho e o preço em média 50% menores.

A Hypermarcas, dona de marcas como Monange, Risqué e Bozzano, já tem presença forte na baixa renda e tem aproveitado a evolução dessa classe social para aumentar as vendas. Claudio Bergamo, presidente da empresa, disse que vinha segurando os preços para ampliar os negócios. “O pobre só vai deixar de comprar esses produtos se comprometer demais a renda futura ou perder o emprego. Enquanto a renda dele estiver atrelada ao salário mínimo, com ganho real, as vendas vão continuar a crescer.”