Foto: João de Noronha/O Estado

Indústria de cerâmica é uma das mais atingidas no Estado.

O possível aumento do preço do gás natural no mercado interno preocupa as indústrias que utilizam o produto como fonte de energia. Elas reclamam dos sucessivos aumentos – que têm elevado os custos de produção – e da instabilidade, desde que o governo boliviano decidiu nacionalizar os campos petrolíferos. No Paraná, algumas plantas industriais já estudam, inclusive, alternativas de fontes de energia.  

É o caso da Berneck, segunda maior indústria de madeira aglomerada do país, que utiliza gás natural na linha de produção há cerca de cinco anos. Segundo o gerente de negócios Edgar Martins, o gás representava cerca de 3,5% dos custos de produção. Hoje esse índice chega a 11% ou 12%. ?O cálculo do preço do gás natural é um monstro. Se o dólar sobe, o preço sobe. Também entram neste cálculo o frete, óleo?, apontou.

Diante das incertezas, Martins admite que a empresa já estuda uma alternativa de fonte energética. ?A Berneck estuda a instalação de uma caldeira de cogeração de energia, talvez até mesmo para as linhas já existentes?, disse. Quando a Berneck optou pelo gás natural, investiu cerca de R$ 1,5 milhão nas instalações. Hoje, a empresa consome cerca de 45 mil metros cúbicos de gás diariamente.

Outro setor que também teme nova alta do preço do gás natural é o da cerâmica. Segundo o presidente do Sindicato da Indústria de Vidros, Cristais, Espelhos, Cerâmicas, de Louça e Porcelana do Paraná (Sindilouça-PR), José Canisso, o gás responde por quase 35% do custos do setor. ?Qualquer reajuste, por menor que seja, traz um grande impacto. O problema é que o Paraná tem o gás mais caro do país e isso tira a nossa competitividade?, apontou. Segundo Canisso, das 36 indústrias do setor instaladas em Campo Largo, oito utilizam o gás natural como única fonte de energia – entre elas a Tiroleza, Incepa, Bordignon. Outras, como a Schmidt e a Germer, utilizam gás e lenha. Quando optaram pelo gás natural, cada indústria investiu cerca de R$ 1 milhão por forno, de acordo com Canisso.

Aumento

O aumento do preço do gás se tornou mais evidente com as declarações feitas pelo presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Haroldo Lima, e do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, admitindo possível reajuste.

?Penso que a Petrobras, provavelmente, ao aumentar o preço pago pelo produto da Bolívia, vai fazer um reajuste interno?, declarou Haroldo Lima, ontem, ressaltando, no entanto, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já determinou que os reajustes internos não devem ser substanciais. ?Ele insiste que não haja aumentos substanciais?, disse Lima.

 De acordo com Lima, a negociação com a Bolívia está sendo encaminhada de forma positiva para os dois países e, até agora, as sinalizações do governo Evo Morales tem sido positivas. ?Há sinalizações avançadas no terreno de um acordo que leve em conta os interesses bilaterais.?

Na mesma linha, a Petrobras divulgou ontem nota de esclarecimento, informando que ?o preço do gás natural no Brasil está defasado em relação aos combustíveis que veio a substituir, provocando desequilíbrio entre a oferta e a demanda.? ?Uma das razões para a defasagem decorre do crescimento da demanda, mais rápido do que seria sustentável. É importante lembrar que a Petrobras vende o gás para as distribuidoras estatais e são elas que definem os preços finais e os reajustes para os consumidores residenciais, veiculares, industriais e para as termelétricas?, informou.

Ainda segundo a nota, a companhia ?manteve os preços do gás vendido às distribuidoras estaduais estáveis durante dois anos (de 2003 a 2005), como forma de incentivar o consumo e ampliar o mercado do combustível. O que significa dizer que a Petrobras não repassou, para as distribuidoras, os reajustes ocorridos no preço do gás da Bolívia.?

No Paraná, a distribuidora Compagás informou através da assessoria de imprensa que a Petrobras deverá honrar o contrato feito com as distribuidoras e não subir o preço do gás importado da Bolívia além do previsto a cada três meses – o último foi em 1.º de outubro, mas não foi repassado pela distribuidora. Com isso, a aposta é que não haja reajuste para os consumidores até o final do ano.