Qual seria a melhor maneira de reaproveitar cinco mil quilos de lonas plásticas utilizadas em publicidade? A solução encontrada pela Associação de Produção de Sacolas Retornáveis (Aprosar) em Ponta Grossa, nos Campos Gerais, foi simples: transformar todo esse material em 60 diferentes tipos de utensílios customizados.

Intitulado como SacoLona, o projeto transforma o material utilizado em propagandas nas rodovias do Estado em bolsas, nécessaires, estojos escolares, bolsas universitárias, aventais, sacolas de feira, de mercado e outros tantos itens customizados que a imaginação das artesãs permitir. Desde que foi iniciado, em 2008, o SacoLona já gerou 35 empregos diretos.

A matéria-prima é proveniente da concessionária CCR Rodonorte que, após anos instalada no Paraná, não tinha local para destinar corretamente todo o material descartado de suas campanhas publicitárias. Assim como acontece com as sacolas plásticas, as lonas utilizadas para a comunicação visual levam muito tempo para se decompor no meio ambiente.

“Trocamos esses banners a cada três meses. Por se tratar de um material difícil de reciclar, armazenávamos tudo no almoxarifado. Então, após lotar o local com cinco toneladas, tivemos conhecimento desse grupo de costureiras da Aprosar”, explica a coordenadora de programas sociais da CCR Rodonorte, Rubia Galvão.

Ao receber a doação feita pela empresa, a presidente da Aprosar, Nilcélia Feitosa, conta que o grupo encarou como um grande desafio transformar aquilo que era considerado lixo em algo útil para a sociedade.

“O banner, quando não está pendurado, é um material totalmente poluidor e isento de maneiras corretas de descarte. Como já trabalhávamos com ráfia, aquele material trançado presente nos sacos de milho, aceitamos o desafio de transformar as cinco toneladas em artigos úteis para todos. Sabemos que uma hora ou outra esse material vi para o lixo, mas assim aumentamos a vida útil das lonas”, conta.

De acordo com Feitosa, além da preocupação com o meio ambiente, o trabalho feito com as lonas gera emprego para as costureiras da cidade. “A maioria delas estava desempregada e sem fonte de renda antes de começar a trabalhar na Aprosar. Hoje, elas ganham o seu dinheiro e são independentes, tudo isso por causa da nossa coragem em começar a trabalhar com um material antes inutilizado. Isso me deixa muito orgulhosa, ainda mais quando nossos produtos começaram a sair do Brasil”, ressalta.

Os produtos feitos pelas costureiras da Aprosar são vendidos entre R$3 e R$25, dependendo do modelo e das características do produto. “Temos parcerias entre mercados e empresas que vendem ou repassam aos seus funcionários nosso artesanato como brinde”, completa.

Parceiros

As empresas, instituições e qualquer outra pessoa que possuir esse tipo de lona e quiser contribuir com o projeto SacoLona, pode entrar em contato pelo telefone (42) 3220 2926. Segundo Feitosa todas as parcerias são bem vidas.

“Nós já contamos com o apoio da CCR RodoNorte, que nos cede uma grande quantidade de lona. Contudo, a demanda por produtos ecológicos, que é o foco do projeto SacoLona, é cada vez maior. Por isso, precisamos de um volume maior de matéria-prima. Lembrando que essa lona demora muito tempo para se decompor no meio ambiente, nós propomos reciclá-la e gerar emprego e renda”, diz. “Não recebemos apenas essas lonas, qualquer material que chegue às nossas costureiras podem virar um belo utensílio, encaramos qualquer desafio”, reforça a presidente.

Reciclagem industrial quer reconhecimento e recursos

Se em Ponta Grossa, nos Campos Gerais, as costureiras do Aprosar deram conta da reciclagem dos materiais provenientes das campanhas publicitárias, por outro lado o setor de reciclagem industrial do Paraná encontra problemas.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Reciclagem (Recibrás), Anuar Faiçal, a categoria não tem nenhum inc,entivo se comparada com a quantidade de benefícios que o serviço prestado por eles traz à sociedade.

Para tentar trazer soluções à categoria, 40 representantes de empresas do setor reuniram-se, na última semana, com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sema).

Dentre todos os pontos apresentados, três foram considerados principais por Faiçal. “A classe está totalmente à deriva. Não estamos regulamentados, não temos sindicato e muito menos legislação especifica por trabalhar com elementos poluidores. Além disso, nosso setor não tem o devido reconhecimento por trabalharmos numa área diferenciada e tão importante para a sociedade”, diz.

“Hoje somos equiparados a sucateiros clandestinos, mas não é bem assim. Além de prestarmos serviços sociais ajudamos significativa o meio ambiente”, completa.

Caso o setor entrasse em greve, por exemplo, Natalino Natta, gerente de uma empresa do ramo (Metalimpex), afirma que o problema seria tão grande quanto uma paralisação no serviço de coleta de lixo domiciliar. “Não tenho dúvidas de que se o  nosso setor parasse por uma semana o caos se instalaria no Paraná”, diz. Outra solução apresentada pelos representantes é um maior poder para a associação.

“Queremos que a Recibrás, como associação e representante do setor, trabalhe como porta-voz para todas as exigências ambientais que os órgãos de fiscalização exigem à categoria. Assim poderemos dissipar ações e informações para o reciclador sobre as prioridades em seu trabalho, o que não existe atualmente”, diz.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Sema informou que o secretário Rasca Rodrigues pretende beneficiar o setor, mas apenas quando todas essas propostas de melhorias forem apresentadas à secretaria de forma escrita. De acordo com Faiçal, isso deve ocorrer no meio desse mês.