Primeiro integrante do novo governo Dilma Rousseff a visitar os EUA, o ministro do Desenvolvimento, Armando Monteiro, desembarcou nesta quarta-feira, 11, em Washington com uma agenda voltada à facilitação do comércio bilateral, que muitos no setor privado consideram assunto tão ou mais importante que negociações para redução de tarifas.

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Monteiro se reuniu ontem com a secretária de Comércio americana, Penny Pritzker, e hoje estará com o Representante Comercial dos Estados Unidos, Michael Froman, responsável pelas negociações de acordos comerciais com outros países. Em seguida, almoçará com integrantes do Brazil-US Business Council, que reúne empresas americanas com negócios no Brasil.

“As tarifas não são mais a grande barreira que foram no passado. O mais importante hoje são medidas de facilitação do comércio e convergência regulatória”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo Guilherme Rico, CEO da Câmara Americana de Comércio (Amcham).

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Não há estimativas precisas do impacto que essas mudanças teriam nas transações bilaterais, mas Rico mencionou estudo que prevê aumento de US$ 1 trilhão no comércio global caso seja implementado o acordo de facilitação de comércio aprovado pela Organização Mundial do Comércio em dezembro de 2013.

Gerente-executivo de Comércio Exterior da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Diego Bonomo observou que medidas de convergência regulatória e facilitação de comércio podem ser adotas no curto prazo, sem necessidade de negociações complexas.

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Há uma outra agenda, mais distante no horizonte, que inclui discussões de acordos de livre comércio e de bitributação com os Estados Unidos, além do fim da exigência de vistos de turismo e de negócios. Mas, por enquanto, o setor privado prefere centrar esforços em questões pontuais que podem ter impacto no futuro próximo.

Entre as propostas defendidas pela Amcham no capítulo de convergência regulatória estão o reconhecimento mútuo dos processos de certificação de produtos, a adoção de especificações que sejam aceitas nos dois mercados e o reconhecimento dos laboratórios que realizam essas certificações. Com isso, as empresas não precisariam repetir os processos no outro país no momento da exportação.

Bonomo, da CNI, mencionou o Portal Único de Comércio, plataforma que o Brasil está construindo para simplificar os procedimentos de exportação, reunindo em um único lugar todos os formulários e autorizações necessárias.

Os EUA estão montando seu próprio portal e a indústria defende que os dois mecanismos “conversem” e eliminem a duplicação de exigências burocráticas no comércio bilateral.

Mas além das negociações de facilitação do comércio, o setor privado vê a visita de Monteiro como o símbolo da possível retomada do diálogo com os Estados Unidos, principal destino da exportação de manufaturados do Brasil.

“Nós gostaríamos de voltar à situação que existia no ano 2000, quando 25,4% de nossas exportações eram destinadas ao mercado americano. O porcentual agora é de 12%”, lamentou José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Castro atribuiu parte da redução das vendas ao mercado americano à “ideologia” dos governos petistas, que colocaram ênfase nas relações com a América Latina e outros países em desenvolvimento. “Desde 2003 não houve nenhuma missão empresarial organizada pelo governo para os Estados Unidos, enquanto houve dezenas para outros países.”

A importância do mercado americano ficou ainda mais evidente com a queda no preço das commodities, cujas vendas nos últimos anos catapultaram a China ao primeiro lugar entre os destinos das exportações nacionais, à frente dos Estados Unidos.

Na opinião de Castro, a visita de Monteiro deveria marcar a “reentrada” do Brasil nos EUA para discutir comércio. Bonomo, da CNI, concorda: “Este é o ano de retomada da agenda com os Estados Unidos, que é um mercado fundamental para a indústria”.