Buenos Aires  – A decisão da Suprema Corte de Justiça da Argentina de declarar inconstitucional a conversão para peso dos depósitos bancários, divulgada semana passada, assustou funcionários do governo e banqueiros. Porém, enquanto analistas econômicos avaliam qual será o real impacto da sentença, o País ensaia uma recuperação econômica cada vez mais sólida.

Conseguir emprego na Argentina, quase um milagre nos piores anos de recessão (1998-2002), voltou a ser possível. Segundo relatório da Universidade Di Tella, em fevereiro passado o Índice de Demanda Trabalhista cresceu 7,89%, em comparação com o mês anterior. Em janeiro, a produção industrial subiu 16,4% frente ao mesmo (e fraco) mês de 2002. A expectativa do governo é fechar o ano com crescimento do PIB acima de 4%.

Porém, essa promessa de relativa estabilidade da economia, já verificada nos últimos meses, poderá não se cumprir, se a sentença da Suprema Corte obrigar os bancos a devolverem os depósitos em dólar. O alerta foi feito na última sexta-feira pela agência de classificação de risco Standard & Poor?s.

Em alguns setores, como o têxtil, a desvalorização do peso foi a salvação. No primeiro mês deste ano, a produção subiu 179%, favorecida pela substituição das importações. A empresária argentina Paula Denari, fabricante de roupa feminina, decidiu contratar duas novas funcionárias este mês.

? Começamos a sentir que a reativação não será passageira e isso nos aliviou. Agora nos sentimos um pouco mais seguros ? disse Paula.

A mudança de regime cambial, em janeiro de 2002, beneficiou vários setores industriais, como têxteis, plásticos, de equipamento agrícola, calçados e vidros. No ano passado, as importações despencaram 60%. Com isso, muitas empresas recuperaram o espaço perdido no mercado interno durante a vigência da paridade entre o dólar e o peso. Segundo o secretário da Indústria argentino, Dante Sica, a tendência deve se manter:

? No segundo semestre veremos uma recuperação mais expressiva. Os empregos criados estão relacionados a profissões que antes não eram demandadas. Por exemplo, empresas do setor de plásticos estão precisando de técnicos, que nos últimos anos estavam desempregados.

Segundo Sica, também aumentaram as horas-extras e diminuíram as demissões:

? A pesquisa que o Ministério do Trabalho realizará em maio deve mostrar queda importante na taxa de desemprego (hoje de 19,5%). Desta vez com criação de emprego genuíno, e não pela concessão de subsídios, que são paliativos.

Em dezembro de 2002 foram empregadas 4.824 pessoas na capital e na região da Grande Buenos Aires (cinturão industrial da Província de Buenos Aires). Do total, 78,5% foram vagas com carteira assinada.

? No interior do país vemos uma reativação maior, porque o setor agropecuário foi um dos mais beneficiados pelo aumento das exportações. Um quilo de lã, por exemplo, custava no ano passado US$ 2, e hoje custa US$ 2,5, o que são quase oito pesos ? disse.

Em alguns casos, os novos empregos são promovidos pelo governo. A Prefeitura de Buenos Aires lançou este ano um programa que busca incentivar o mercado de trabalho. O mecanismo é o seguinte: o empresário preenche um formulário, indicando o perfil do trabalhador que procura. A Prefeitura recomenda uma pessoa, e caso a empresa aceite, durante seis meses a prefeitura paga um salário de 200 pesos (US$ 62,5) ao novo funcionário. O objetivo é que, após esse período, o trabalhador seja contratado pela empresa, e passe a receber uma remuneração maior.

Também aumentou a demanda de jovens profissionais. Na Universidade Católica Argentina (UCA), todas as semanas chegam novos pedidos de estudantes que estejam cursando o último ano da carreira, para estágios e cargos com salários de até 2 mil pesos (US$ 625).

Contratos serão revistos

Ser o país mais privatizado da América Latina não é motivo de orgulho para a Argentina. Mais de dez anos após o início do processo de privatização das empresas de serviços públicos, o governo começou a rever os contratos, começando pelas empresas do serviço ferroviário. Após detectar sérias irregularidades, o Poder Executivo deu prazo até meados de abril para que o serviço volte a oferecer conforto, segurança e higiene. Do contrário, a concessão poderá ser suspensa.

? Esperamos uma resposta contundente antes da mudança de governo, em maio. Queremos deixar os trens funcionando, porque a população não pode continuar viajando nas atuais condições ? disse o ministro da Produção, Aníbal Fernández.

Segundo o relatório da Comissão Nacional de Regulamentação do Transporte (CNRT), quase todos os planos de modernização, previstos nos contratos de concessão, não foram implementados. Resultado: hoje o sistema funciona pior do que antes da privatização. O Estado argentino gastou US$ 440 milhões em subsídios para as empresas privatizadas, e obras no setor.