O mercado financeiro continua apostando que o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central vai reduzir a taxa de juros Selic em 0,25 ponto percentual, fixando-a em 15,75% ao ano na reunião que começa hoje e termina amanhã. Pela quarta semana consecutiva essa é a expectativa dos analistas e economistas do mercado, segundo o Relatório de Mercado divulgado ontem pelo Banco Central. Para o final deste ano, a expectativa ainda é de que a taxa de juros chegue a 14% ao ano.

De acordo com o documento, a estimativa é de alta para a inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Para o mês de maio, a previsão do mercado é de que a taxa feche em 0,44% contra 0,41% previsto na semana passada. Para o ano todo, o mercado elevou a estimativa do IPCA de 6,12% para 6,17%. Essa alta nas previsões também ocorreu com relação ao próximo ano, quando os economistas esperam um IPCA de 5,10% contra os 5% previstos anteriormente.

O mercado também elevou a previsão de inflação medida pelo IGP-DI para 2004 de 8,51% para 9% e do IGP-M, de 8,82% para 8,90%.

Os analistas e economistas entrevistados pelo Banco Central apostaram, pela segunda semana consecutiva, em um aumento da dívida líquida do setor público, de 56,6% do PIB (Produto Interno Bruto) para 56,9% do PIB neste ano. A previsão de crescimento do PIB em 2004 foi mantida em 3,5% e, para 2005, caiu de 3,55% para 3,5%.

Para a balança comercial deste ano, a expectativa é de um superávit de US$ 25,3 bilhões, contra os US$ 25 bilhões previstos anteriormente. As previsões para o saldo da balança em 2005 também subiram de um superávit de US$ 22 bilhões para US$ 22,5 bilhões.

Com relação aos investimentos estrangeiros diretos, o mercado previu, pela terceira semana consecutiva, uma queda no volume de ingressos no País e a expectativa é de que cheguem a US$ 12 bilhões em 2004. Na semana passada, a estimativa era de um ingresso de US$ 12,35 bilhões. Para 2005, a previsão também caiu de um volume de investimentos de US$ 14,5 bilhões para US$ 14,25 bilhões.

Dólar e petróleo são as preocupações

O Banco Central se reúne hoje e amanhã para decidir sua taxa de juros dividido entre dois riscos: o primeiro, parecer imprudente ou sujeito a pressões políticas ao promover uma queda em meio às recentes turbulências do mercado; o segundo, contribuir para o clima de pessimismo ao manter os atuais 16% ao ano.

A perspectiva cada vez mais palpável de alta dos juros nos EUA e a escalada das cotações do petróleo, que fecharam a semana passada em níveis recordes, levaram o dólar a subir no Brasil e criaram o dilema para o Copom (Comitê de Política Monetária, formado pelo presidente e pelos oito diretores do BC).

Embora um número significativo de analistas tenha passado a sustentar que o BC não mexerá no atual nível dos juros, grande parte das apostas ainda aponta para uma queda mínima da taxa.

Na sexta-feira, projeções dos juros futuros, negociados na BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros), mostravam a expectativa do mercado de que a taxa seria reduzida em 0,25 ponto percentual.

Para Hugo Penteado, economista-chefe do ABN Amro Asset Management, as altas do petróleo e do dólar não são motivos suficientes para fazer o BC abandonar já a redução gradual de juros.

“O BC vai dizer que volatilidade de cinco dias não é suficiente para mudar a perspectiva que ele vinha traçando na política monetária”, disse Penteado, que defende a redução de 0,25 ponto. “Pessimismo e grandes exageros não podem nortear a política monetária. Ela não deve sancioná-los.”

Em boletim distribuído aos clientes da empresa de consultoria Tendências, o ex-presidente do BC Gustavo Loyola defende a redução dos juros para 15,75% anuais, embora avalie que os membros do Copom vão ficar “reféns da conjuntura de mercado vigente no início da semana”.

Sinais do governo

As reações do governo à instabilidade do mercado mostram a clara preocupação de não ratificar desconfianças quanto às possibilidades de crescimento da economia e à continuidade da agenda legislativa da Fazenda.

Na última terça, em reunião com líderes partidários do Senado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu a aprovação rápida de projetos como o da nova Lei de Falências e o das PPPs (Parcerias Público-Privadas). “Preciso dar argumentos ao Copom para baixar os juros”, disse Lula, segundo os senadores.

“Não há razão para acreditar que essa movimentação que ocorre hoje possa trazer uma deterioração das nossas contas e da nossa retomada de crescimento”, disse na quinta o ministro Antônio Palocci Filho (Fazenda) – ao lado de Lula, que concordou.