A persistente alta da cotação do dólar este ano já começa a pressionar a inflação de 2003 e, a cada dia que passa, cria um componente a mais de dificuldade para o futuro presidente da República. Mesmo que consiga reverter o quadro de instabilidade e retomar o crescimento da economia, o presidente eleito terá um histórico de depreciação cambial que tende a se refletir de forma mais acentuada nos preços.
Segundo análise dos diretores do Banco Central, expressa na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada hoje (25), ?tendo em vista a magnitude da depreciação cambial observada ao longo do ano, o coeficiente de repasse da depreciação aos preços pode aumentar?. Isso se tornará ainda mais forte ?num ambiente de retomada do crescimento?, destacam os diretores.
Portanto, mesmo que essa melhora no cenário doméstico provoque valorização da moeda, é de se esperar pressão nos preços por causa da desvalorização que foi represada. Em função disso, as projeções de inflação para este ano e para 2003 foram revistas para cima e os juros mantidos inalterados, sem nenhum indicativo de queda (viés), como ocorreu em agosto.
Os cálculos do Copom mostram que a manutenção da taxa de juros em 18% ao ano e da taxa de câmbio num patamar de R$ 3,20 ?apontam para uma inflação significativamente acima do limite superior do intervalo de tolerância em 2002 e acima do centro da meta em 2003?. Na ata da reunião de agosto, os diretores do BC já admitiam que a inflação deste ano ficaria acima dos 6%, valor superior ao teto da meta fixado em 5,5%. No entanto, para 2003, as projeções eram de uma variação nos preços abaixo de 4%, o centro da meta do ano que vem.
Nem mesmo o fato de as contas externas terem se ajustado às condições ruins do mercado internacional, o que diminui a necessidade de o Brasil atrair recursos estrangeiros para financiar as suas obrigações, tem ajudado a aliviar a pressão no câmbio. Segundo os diretores do BC, o cenário de incertezas ?reflete não só um ambiente internacional adverso, mas também dúvidas remanescentes por parte de alguns agentes econômicos quanto à coerência da política macroeconômica nos próximos anos?. Com isso, eles ressaltam que apesar de a inflação para o ano que vem estar abaixo do teto da meta, a persistência da volatilidade financeira aumenta o risco de concretização dessa projeção.
O câmbio tem impacto não somente nos preços livres mas, principalmente, nas tarifas administradas que devem subir 9,3% este ano e 7,9% no ano que vem. Na reunião anterior do Copom, a elevação desses preços estava projetada em 8,8% para 2002 e 7,6% para o ano que vem.
Este ano, além do câmbio, a alta do preço do petróleo fez o Copom abandonar a expectativa de queda no preço da gasolina. Em vez de cair 0,8%, como acreditava em agosto, o BC agora trabalha com um aumento de 3,3% no ano. Já as tarifas de energia elétrica devem subir 3,8% nos próximos meses. No ano, a projeção do BC é de uma alta de 20,6%, sendo que 16,2% já foram verificados entre janeiro e agosto. No ano que vem, o reajuste dessas tarifas deve manter o patamar de 20,7%.


