Foto: Anderson Tozato

Feijão subiu demais e desapareceu da mesa do consumidor.

A população brasileira vem sentindo no cardápio do dia-a-dia os efeitos da inflação. Em 2007, todos os principais índices inflacionários tiveram elevação e o que mais influenciou nesta realidade foi a alta do preço dos alimentos. Neste segmento, entre os grandes vilões estão dois itens considerados básicos na mesa de grande parte das famílias, o feijão e a carne.

No Brasil, de acordo com o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o feijão carioca teve um aumento de 144,42% e o preto de 39% ao longo de 2007. Já entre as carnes bovinas, o filé mignon subiu 36%. Na Região Metropolitana de Curitiba, também conforme o IPCA, o feijão preto subiu mais que a média nacional, 48%. Entre as carnes, a alcatra teve aumento de 24%.

?A elevação do valor do feijão ocorreu em função dos baixos preços aplicados em 2006, a fatores climáticos e redução da área plantada. Tudo isto fez com que houvesse redução da oferta. Já a carne subiu devido a problemas climáticos, que afetaram o pasto, ao aumento das exportações e do consumo?, explica o economista do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos), Cid Cordeiro.

O comerciante do Mercado Municipal de Curitiba Rafael Caldeira da Silva diz que sentiu queda na venda de feijões justamente devido à elevação no preço do produto. Ele lembra que, normalmente, pagava cerca de R$ 90,00 pela saca do feijão carioca. No final do ano passado, estava pagando R$ 270,00. ?Agora, estou conseguindo por R$ 170,00, pois teve início uma nova safra. Entretanto, em 2007, muita gente substituiu o feijão por outros alimentos, como a soja em grãos e a lentilha?, afirma.

A professora e dona-de-casa Marta Regina da Silva foi uma dessas pessoas. Ela conta que deixou de preparar feijão para a família todos os dias e tentou substituí-lo por uma quantidade maior de legumes. Entretanto, a estratégia acabou não dando certo. ?Meus filhos reclamaram bastante. O problema é que, na minha opinião, o feijão é insubstituível, tanto pelo sabor quanto pela qualidade nutricional. Só que o preço tem sido absurdo?, diz.

A alta da carne também não passou despercebida. Organizada, a proprietária do açougue Cofácil, no bairro Vista Alegre, na capital, costuma ter anotado o valor de uma peça inteira de carne bovina pago aos distribuidores e frigoríficos ao longo dos anos. Ontem, diante da reportagem de O Estado, ela mostrou que, em janeiro de 2006, pagava R$ 4,90 pelo produto. No mesmo mês de 2007, R$ 5,20. Hoje, R$ 6,50.

?Tenho açougue há 19 anos e, ao contrário do que muita gente pensa, a carne nunca deu uma grande margem de lucro. Por isso, não tem como não passar reajustes de preço ao consumidor final. O valor vai aumentando aos pouco, de R$ 0,05 a R$ 0,10, e quando a gente vê no acumulado dá bastante?, comenta.

Também no Mercado Municipal, o proprietário de açougue Dielson Schilipacke sentiu uma queda de 30% nas suas vendas de carne bovina no decorrer do ano passado. Segundo ele, muita gente substituiu o alimento pela carne de frango. ?Um quilo de coxa de frango está R$ 5,50. Já de carne bovina, R$ 12,00?. Entretanto, o que vem segurando o negócio de Dielson é a venda de carnes consideradas exóticas.

?As carnes exóticas, como a de rã, pato, codorna, javali e avestruz, têm um público específico, mais direcionado e de alto poder aquisitivo. É isso o que está fazendo com que eu me mantenha no ramo de açougue. Sobreviver só da venda de carne de boi é impossível.?