Integrantes da base governista pressionam o presidente Lula a rejeitar medidas de ajuste fiscal, mesmo diante da deterioração dos indicadores econômicos após o resultado eleitoral. Setores da esquerda defendem a manutenção dos gastos sociais e chegam a propor a revogação do arcabouço fiscal, a principal regra de controle das contas públicas do país. As informações são da Gazeta do Povo.
O ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou nesta terça-feira (27) que um pacote de ajuste nas contas públicas não está em discussão no governo. A declaração contrariou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que defendia medidas para dar uma resposta ao mercado. Horas depois, Guimarães tentou amenizar a repercussão nas redes sociais.
A divergência ocorre após forte queda nos mercados financeiros. Na segunda-feira (26), o Ibovespa despencou 13,88%, o dólar chegou a R$ 5,60 e os juros futuros dispararam, com contratos de longo prazo acima de 15% ao ano. Até quinta-feira (29), a Bolsa acumulava queda de aproximadamente 17,5% em relação à sexta-feira anterior.
Ala radical defende revogação da regra fiscal
A vitória de Lula no segundo turno fortaleceu os setores da esquerda governista contrários a cortes nas despesas sociais. O ministro Guilherme Boulos escreveu nas redes sociais que quem defende ajuste fiscal cortando gastos em políticas sociais não entendeu a eleição. Segundo ele, a agenda econômica do Brasil será a que venceu as eleições, não a que perdeu.
A deputada Sâmia Bomfim seguiu na mesma linha e defendeu a revogação do arcabouço fiscal. Ela classificou a mobilização das ruas como incompatível com qualquer medida fiscalista e propôs a taxação dos bilionários e mais financiamento para áreas sociais.
Durante a campanha, Lula evitou assumir compromissos com um ajuste mais amplo. O presidente sugeriu que seu governo já havia demonstrado responsabilidade fiscal e afirmou que não havia necessidade de discutir o tema. Ao mesmo tempo, assumiu compromissos eleitorais que ampliam a pressão sobre as contas públicas. O Gastômetro, do Estadão, contabilizou gastos extras de R$ 405 bilhões associados a 46 medidas anunciadas ou ampliadas às vésperas da eleição.
Economistas alertam para risco de inflação e recessão
A Gazeta do Povo apurou que Lula tem dado ouvidos ao ex-ministro Guido Mantega, que sustenta que o país não enfrenta uma crise fiscal e classifica os alertas econômicos como um exagero da Faria Lima. Segundo relatos publicados pela imprensa, Lula também tem manifestado a interlocutores que não deve satisfações ao mercado financeiro.
Economistas, porém, têm diagnóstico diferente. Paulo Tafner, presidente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social, afirma que a combinação de dívida crescente e juros elevados coloca as contas públicas em uma trajetória insustentável. A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em setembro, segundo o Banco Central, e os juros básicos estão em 13,75% ao ano.
Alexandre Manoel, da Global Analytics, considera que o governo já recuperou boa parte da arrecadação possível por meio do aumento de impostos. Segundo ele, caso Lula ceda à pressão da ala mais radical do PT e não implemente medidas de ajuste fiscal, o canal de crédito irá travar, os juros continuarão altos e a economia entrará em crise acelerada.
