Estudo publicado recentemente pelos pesquisadores Gerusa Gibson e Sergio Koifman, da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), revelou uma tendência preocupante. Em municípios cuja principal atividade econômica é a agricultura, a exposição demasiada e o consumo elevado de agrotóxicos estão fazendo com que haja uma diminuição no número de nascimentos de indivíduos do sexo masculino. Para realizar a pesquisa, foram analisadas 308 cidades paranaenses no período entre 1994 e 2004. O objetivo era avaliar a existência de uma possível associação entre o consumo de agrotóxicos e a verificação da normalidade na taxa de nascimento de meninos. O estudo serviu como tema de dissertação de mestrado em Saúde Pública e Meio Ambiente da pesquisadora.

De acordo com Gibson, a pesquisa indicou uma pequena tendência de queda no número de nascidos do sexo masculino para o Paraná como um todo. Contudo, em um grupo de dez municípios (Jardim Olinda, Nova Aliança do Ivaí, Guairacá, Icaraíma e Santo Antônio do Caiuá, no noroeste; Cafeara, Doutor Camargo e Rio Bom, no norte; Palmeira, no centro; e Barra do Jacaré, no Norte Pioneiro do Estado) foi verificada queda mais acentuada do que normalmente é descrito na literatura médica (média de 51% de nascimento de homens).

“Nessas localidades, a porcentagem de nascimentos de seres do sexo masculino está bem abaixo do normal. Em Jardim Olinda e Icaraíma, por exemplo, a taxa estava em 26% e 40%, respectivamente. É necessário fazer uma avaliação mais profunda dos impactos sofridos por essas pessoas e os riscos a que estão submetidas”, informa a biomédica.

O trabalho dos pesquisadores sugere que os agrotóxicos estariam atuando como desreguladores endócrinos na população. “Alguns desses produtos são capazes de alterar a fisiologia do sistema endócrino a partir de múltiplos mecanismos, em especial a capacidade de mimetização de hormônios naturais devido à semelhança entre suas estruturas moleculares”, explica. Ela diz ainda que a exposição prolongada a esses agentes nocivos pode resultar, a longo prazo, em uma série de problemas de saúde ligados ao sistema endócrino, como neoplasias hormônio-dependentes e disfunção da saúde reprodutiva, como redução da fertilidade masculina, abortos espontâneos e malformações congênitas.

Para Gibson, essa exposição crônica aos agrotóxicos estaria associada à razão sexos/nascimentos. Segundo a pesquisadora, a medida utilizada para avaliar a relação quantitativa entre os sexos vem se mostrando sensível às condições do ambiente. “Assim, pode-se entender que a redução do número dos nascimentos masculinos seja resultado da influência das concentrações hormonais dos pais no momento da concepção sobre o sexo do embrião a ser desenvolvido”, diz.

A biomédica complementa que os resultados obtidos com o trabalho indicam uma forte influência do alto consumo de agrotóxicos na diminuição do número de nascimentos masculinos. Segundo ela, futuramente novos estudos devem ser feitos a fim de esclarecer e dimensionar o impacto que a contaminação por agrotóxicos tem na saúde reprodutiva das pessoas dessas regiões.

Utilizado sem critério, produto torna-se ainda mais nocivo

Aliocha Maurício
Mesmo sem necessidade, soja é das culturas que mais sofrem aplicações.

O Paraná é o segundo estado do Brasil com o maior índice de consumo de agrotóxicos, perdendo apenas para São Paulo. De acordo com o engenheiro agrônomo, e chefe da divisão de fiscalização de insumos e serviços agrícolas da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab), Adriano Riesemberg, muitas vezes o uso desses produtos é feito sem necessidade. “Não me surpreende o fato de que esses materiais possam afetar a saúde dos agricultores, como demonstrou a pesquisa da biomédica”, diz o engenheiro agrônomo. Para Riesemberg, a pressão para comercializar os agrotóxicos está deixando o produtor rural do Paraná refém dessa alternativa de combate às pragas. “Existem outros meios de se controlar pragas, porém, o agrotóxico está sendo o único utilizado.

Não é porque aparece um problema que deve-se despejar esses produtos na lavoura”, afirma. Ele exemplifica a plantação de soja como uma das que mais sofrem aplicações. “A soja, na sua fase vegetativa, suporta um alto nível de ataque de lagartas. Entretanto, os produtores muitas vezes desconhecem isso e aplicam o veneno sem necessidade. Com esse abuso, as pragas estão adquirindo uma resistência maior aos defensivos e os agricultores estão misturando dois ou mais tipos de produtos para aplicar. Ou seja, mais veneno na cultura e mais riscos para o produtor”, explica. Para o engenheiro agrônomo, o consumo de defensivos agrícolas tende a crescer e, se a sociedade não tomar consciência sobre os perigos que os agrotóxicos representam, há o risco de aumentarem os problemas de saúde. “Existem outros meios de se combater pragas nas lavouras. Basta o agricultor se informar. Se persistir esse uso indiscriminado de agrotóxicos, problemas como os apresentados pelo estudo da pesquisadora Gerusa Gibson continuarão a persistir”, finaliza.