A produção de tilápia no Brasil cresceu em média 10% ao ano nos últimos 12 anos, mas em 2026 o crescimento deve ser zerado devido a um acordo comercial do governo federal com o Vietnã. O pacto foi assinado em julho de 2025 durante a Cúpula Ampliada do BRICS, no Rio de Janeiro, e abriu o mercado brasileiro de pescados em troca da autorização vietnamita para importar carne bovina do Brasil. As informações são da Gazeta do Povo.
Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), afirma que o Vietnã está aproveitando o crescimento do setor brasileiro. As importações de tilápia vietnamita já correspondem a 10% da produção nacional. A JBS, maior empresa de proteína animal do mundo, fechou o primeiro contrato de importação de 700 toneladas do peixe asiático, que começaram a chegar ao país em novembro de 2025.
Neste ano, a importação de filé de tilápia saltou de 1.407 toneladas em janeiro para 4.892 toneladas em agosto, segundo dados do Centro de Inteligência e Mercado em Aquicultura, da Embrapa Pesca e Aquicultura. O setor brasileiro reclama de dumping (prática de vender produtos abaixo do preço de custo para dominar o mercado) e questiona como o peixe vietnamita chega ao Brasil com o mesmo preço, apesar de custos de produção similares.
Governo discute classificar tilápia como espécie invasora
Além da concorrência vietnamita, o governo federal criou um grupo de trabalho na Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio) para discutir critérios que podem classificar a tilápia como espécie invasora. O prazo inicial de 90 dias, que venceria em 26 de setembro, foi prorrogado por mais 180 dias. A medida também pode atingir eucalipto, pinus e frutas como goiaba, manga e jaca.
Segundo Medeiros, se a tilápia for classificada como invasora, o segmento pode acabar no Brasil. Existe um acordo internacional com 187 países, assinado na COP 15, prevendo controle ou erradicação de espécies invasoras até 2030. Grandes grupos econômicos não podem financiar nem comercializar espécies invasoras devido a protocolos de sustentabilidade. O setor acumula mais de R$ 6 bilhões em investimentos e produção anual de R$ 9,5 bilhões.
O Ministério do Meio Ambiente afirma que a classificação tem caráter técnico e preventivo, e não implica banimento automático ou proibição de cultivo. A pasta diz que o objetivo é reconhecer o potencial de impacto sobre a biodiversidade nativa. Porém, o setor aponta que uma portaria do Ibama de março classificou o pirarucu como invasor, e o maior produtor do Sudeste recebeu prazo para erradicar todo o plantel.
Produtor capixaba recebe ultimato para eliminar criação de pirarucu
Júnior Costa, da empresa Pirarucu Capixaba no Espírito Santo, trabalha há 21 anos com a criação do peixe amazônico em viveiros. Ele produz até 60 mil filhotes por ano e tem meta de chegar a 200 mil em cinco anos. Há três meses, após fiscalização estadual, recebeu prazo de 60 dias para eliminar os pirarucus. Ele recorreu da decisão e aguarda resposta. Uma nova área preparada para expansão está ociosa, à espera do licenciamento.
O quilo do pirarucu no mercado consumidor chega a R$ 100, e a pele de um animal de 20 kg rende R$ 80. Para evitar introdução fora do habitat natural, Costa mantém os tanques em áreas elevadas, longe de rios, nascentes e várzeas. Os fiscais municipais não identificaram problemas e concederam licença, mas a licença estadual ainda não saiu.
O impacto da classificação negativa atinge principalmente pequenos produtores cooperados, especialmente no Oeste do Paraná, onde cooperativas integram milhares de piscicultores. A reportagem procurou os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços para comentar as críticas sobre a abertura do mercado ao Vietnã. Até o fechamento, não houve resposta. A JBS também foi procurada, mas preferiu não se manifestar.
