Depois de uma manhã marcada pela instabilidade, o mercado de câmbio teve hoje (15) um comportamento mais tranqüilo à tarde, com o dólar fechando em baixa de 0,26%, cotado a R$ 3,85.

Se de um lado a especulação em torno do vencimento, na quinta-feira, de US$ 3,6 bilhões de títulos cambiais eleva a demanda pela moeda, de outro as limitações impostas pelo Banco Central (BC) na sexta-feira para os bancos manterem posições em câmbio aumentam a oferta de dólares no mercado. Além disso, a expectativa de que a taxa Selic possa subir novamente no curto prazo – talvez na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) – inibiu algumas compras de dólares.

A possibilidade de uma nova alta da Selic provocou outra disparada das projeções de juros: a taxa dos contratos futuros para janeiro subiu de 23,28% para 25,6% ao ano, atingindo logo pela manhã o limite de oscilação permitido pela BM&F, aí ficando até o fim dos negócios.

Pela manhã, a volatilidade deu o tom dos negócios no câmbio, com o dólar oscilando entre R$ 3,81 e R$ 3,89. A pressão diminuiu um pouco depois que o BC anunciou que faria o leilão de um lote de contratos cambiais com vencimento 1.º de novembro, mas não relacionado à rolagem dos US$ 3,6 bilhões. Embora não tenha aceitado nenhuma das propostas do mercado, porque as taxas pedidas foram muito elevadas, a medida indicou que o BC vai usar vários instrumentos para tentar atuar no câmbio, afirmou o diretor de Tesouraria do WestLB Banco Europeu, Flávio Farah. Além disso, o BC vendeu cerca de US$ 100 milhões à vista.

A instituição também ofereceu outro lote de contratos cambiais, com vencimento em 2 de dezembro, mas nesse caso com o objetivo de rolar uma parte dos US$ 3,6 bilhões de títulos atrelados ao dólar que vencem amanhã, corrigidos pela cotação média (ptax) de amanhã.

Como os juros exigidos foram elevados demais, o BC também recusou as propostas. Até hoje, o BC rolou 53,5% dos US$ 3,6 bilhões de papéis cambiais que vencem quinta-feira. Para o chefe da mesa de câmbio do banco ING, Alexandre Vasarhelyi, é possível que a pressão sobre a ptax amanhã não seja tão intensa exatamente porque a autoridade monetária renovou mais da metade dos títulos. E, no começo da noite, o BC anunciou que vai ofertar amanhã mais dois lotes de contratos cambiais, para dar continuidade à rolagem dos US$ 3,6 bilhões de títulos. Essa estratégia é pouco comum, porque em geral a autoridade monetária não tenta renovar os papéis que estão vencendo no dia da formação da cotação pela qual eles serão corrigidos.

Nos dias que antecederam os últimos vencimentos de papéis cambiais, houve uma queda-de-braço entre o mercado e o BC. As instituições financeiras tentam forçar as cotações para cima porque, quanto mais alto o nível do dólar, maior o ganho de quem detém os títulos. Mas Vasarhelyi e Farah entendem que o quadro talvez seja um pouco diverso amanhã. Além do fato de que o BC já rolou 53,5% dos títulos, as instituições financeiras têm até amanhã para se adaptar às medidas que reduziram o limite máximo dos bancos para exposição em câmbio de 60% para 30% do patrimônio líquido e elevaram a exigência de capital de 75% para 100% para manutenção de posições em dólar. Com isso, alguns bancos deverão vender dólares, para se enquadrar às novas regras. A questão é saber se isso será suficiente para neutralizar a demanda decorrente do movimento especulativo para elevar as cotações. Estimativas do mercado apontavam que os bancos teriam de vender entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões para se adaptar às novas medidas do BC.

Vasarhelyi apontou ainda a atuação mais agressiva do BC nos últimos dias como um potencial inibidor de compras de dólares. Amanhã, é possível que a autoridade monetária venda lotes maiores de moeda americana no mercado à vista, para segurar as cotações. Farah destacou também que o mercado passou a cogitar que pode vir um novo aumento da Selic, que subiu ontem de 18% para 21%. Esse temor está provocando a explosão das taxas dos contratos futuros de juros. Os contratos de novembro e dezembro deste ano e janeiro de 2003 fecharam no limite máximo de alta.