O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, enfrentou seu opositor no segundo turno, o tucano paulista Geraldo Alckmin, no debate promovido pela Rede Bandeirantes, domingo à noite. Passou a maior parte do tempo se defendendo dos ataques desferidos pelo adversário, que em vários momentos aludiu ao fato assaz deprimente de o país ter ?um presidente mentiroso?. Para muitos, um diálogo de surdos ou monólogos que se entrecruzaram em raríssimas oportunidades, com respostas evasivas e inconsistentes de lado a lado, com a visível intenção de desviar de seu fulcro o tema proposto.

Quem assistiu ao debate até o último bloco, no qual os candidatos apresentaram suas razões finais, deve ter sentido imensa frustração por não ver – mais uma vez – candidatos debatendo idéias para o crescimento sustentado do país, quais são os projetos para geração de empregos e renda, a melhoria da segurança, saúde e educação, entre outras questões comezinhas da administração pública.

Um candidato formulava a pergunta e o outro tergiversava, o que valeu a Lula o apodo de ?comentarista?, tentativa histriônica de Alckmin de levar o adversário ao desgaste emocional. Ante as respostas vagas do ex-governador de São Paulo, o próprio Lula reagia também com algum apuro na desqualificação do contendor, devolvendo-lhe o tratamento zombeteiro, chamando-o de ?nervoso?.

Enquanto o debate avançava, as grandes questões nacionais sequer eram lembradas pelos candidatos, ou ficavam na rama. Por exemplo, quase nada foi dito sobre a política de energia para o país, a não ser alusões tópicas ao apagão do ano 2000. Alckmin afirmou que seu governo vai gerar 4 mil megawatts anuais de energia elétrica e Lula respondeu que sua administração é responsável pela geração de valor semelhante, mas não explicou se a energia provém das usinas existentes ou de algum projeto novo.

Todos os grandes projetos citados pelo presidente, na interpretação do tucano, ?não saíram do papel?, como a Transnordestina, a transposição do Rio São Francisco, as universidades e escolas técnicas. Lula não viu dificuldade em prometer que tudo começa no ano que vem.

Alckmin fez o papel que lhe cabia. Fustigou o adversário em todas as intervenções, insistindo na tese das respostas incompletas ou desviacionistas. Mas quando era sua vez de responder, apelava igualmente para o método de tratar do assunto sem entrar no principal. Dessa forma, ao que parece mais preparado para o debate que o adversário – que leu a maioria das perguntas – e foi cobrado por isso, Alckmin pode ter tido alguma vantagem sobre o presidente. Se é verdade, a próxima pesquisa de intenção de votos vai demonstrar, mesmo sendo pequena a margem de eleitores que se deixa influenciar pelo desempenho de seu candidato em confrontos televisivos.

Amostra de quão difícil é chegar a uma conclusão está na apreciação posterior feita pelo senador Eduardo Suplicy e sua ex-mulher, uma das coordenadoras da campanha de Lula. Antigo boxeador, Eduardo afirmou que se um dos debatedores venceu foi por exígua diferença de pontos. Marta, com ar de deboche, fez pouco caso do tucano, considerando-o fraco e ruim.

A verdadeira impressão, porém, é que quem dormiu mal foi o presidente.