O último, mas não o derradeiro capítulo do caos aéreo, leva à conclusão de que o governo não sabe o que fazer. Ignorava a gravidade do problema e não acreditava ou fingia não acreditar que se trata de uma crise que pode abalar a confiança e o conceito que nele deposita a nação. Agora caiu a ficha. Depois de seis meses de problemas, eles continuam. Oxalá este surto da crise termine mesmo hoje ou amanhã, dependendo de não surgir mais algum fato novo e igualmente desconhecido, inexplicável ou inexplicado, dos tantos que transformam o tráfego aéreo numa balbúrdia e a antiga comodidade do vôo numa aventura de fim ignorado e riscos inegáveis.

Desta vez a coisa foi tão grave que até companhias estrangeiras que despachavam seus vôos para o Brasil ou, via Brasil, para países como a Argentina, obrigaram seus aviões a não voar. Nossos ares e nossos aeroportos não são seguros. O governo saiu-se mal. Ao defrontar-se com um movimento paralisatório dos controladores, não acreditou pudesse ele prosperar, chegando mesmo à greve de fome de alguns integrantes da categoria. Acreditou que bastaria mandar prender um ou outro e tudo acabaria em pizza. Ou o presidente Lula dar murros na mesa, exigindo soluções com dia e hora marcados e o ministro da Defesa ameaçasse demissões, para que tudo terminasse.

Não terminou, ou terminou num acordo comprido e ainda não cumprido, o governo pondo o rabo no meio das pernas e os controladores de vôo, civis e militares, mas todos militarizados, cientes das fraquezas do governo, de sua responsabilidade pelo apagão aéreo, pela falta de providências efetivas e tempestivas e principalmente pela quebra de hierarquia. O governo acabou vestindo a carapuça e convencendo-se de que não manda e, se mandar, não lhe obedecem. Tudo isso aconteceu quando Lula estava em Camp David, numa longa conferência com Bush da qual trouxe um ?nada? e ainda considerou positivo. E fez lembrar que, nos tempos do presidente Reagan, os controladores de vôo norte-americanos também decretaram uma greve. Dois dias depois, foram todos demitidos e substituídos. O governo dos Estados Unidos assumia as responsabilidades e a tempo, tanto que preparara substitutos para os grevistas, o que lhe permitiu reafirmar sua autoridade e fazer funcionar de imediato o ameaçado tráfego aéreo norte-americano.

Estar no poder não significa ter poder e muito menos razão. O manifesto dos controladores de vôo brasileiros, apócrifo para que não ocorram punições, traz uma série de indagações. O governo delas não cogitava por estar preocupado com coisas de somenos, como curvar-se à imposição desta ou daquela sigla partidária para formar o mais retardado ministério já visto na história política brasileira. Perguntam os controladores, dentre outras coisas relevantes: ?Quem, ao tentar expor as verdadeiras situações do tráfego aéreo nos livros de ocorrências dos órgãos operacionais, sofre perseguições da chefia militar?; quem é acusado de insubordinado e sindicalista ao executar uma operação de segurança que consta em norma internacional de aviação civil?; quem é o principal suspeito ao ocorrerem panes no sistema de comunicação, queda de energia ou overbooking de empresas aéreas?; quem é o profissional obrigado a monitorar vôos e milhares de vidas acima do recomendado pelas normas de segurança??. E por aí vão muitas outras indagações que, se respondidas e soluções encontradas, tudo se resolve.

Resultou um acordo condicional, no qual prometem as autoridades soluções e atendimento às reivindicações, não se sabe quando e se mais algum problema não vai acontecer para voltar a paralisar o nosso tráfego aéreo. Tudo isso justifica a CPI que o governo não quer, a oposição requer e parece que a Justiça vai permitir. É hora de discutir as coisas a sério e às claras e encontrar soluções, pois há uma parte nessa refrega que – por enquanto – só está protestando e sofrendo as conseqüências: a clientela, o povo.