Ribeirão Preto, SP – O delegado seccional de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, Benedito Antônio Valencise, reafirmou hoje que o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci coordenou o esquema de fraudes no contrato do lixo e limpeza urbana da prefeitura, quando prefeito. Ontem (27), em Brasília, por meio de carta precatória, Palocci foi indiciado por quatro crimes no inquérito de Ribeirão, mas afirmou que qualquer responsabilidade sobre irregularidades deveria ser da ex-superintendente do Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão Preto (Daerp) Isabel Bordini. Valencise desconsiderou essa estratégia do ex-ministro da Fazenda.

"O então prefeito (entre 2001 e 2002) era quem coordenava todo o esquema, determinava o que, efetivamente, deveria ser feito e existem provas que demonstram a pessoa que coordenava os atos dos demais nesse esquema fraudulento", afirmou. "Pelas provas, ele (Palocci) não foi omisso, não; muito pelo contrário, ele atuou, agiu de forma bastante positiva e foi quem coordenou todo esse esquema, mas é claro que não seriam ordens por escrito", afirmou, lembrando que foram encontrados vários documentos falsificados somente entre 2001 e 2004. "É óbvio que ele participou."

Para não deixar dúvidas de que alguém citou o nome de Palocci durante a investigação, uma vez que o advogado dele, José Roberto Batochio, afirma que isso não existe, o delegado seccional de Ribeirão Preto disse: "Com a clareza do sol do meio-dia, Rogério Buratti (ex-secretário de Governo da prefeitura) citou que ele (Palocci) dava as ordens e Isabel Bordini ouvia, atendia e cumpria." Valencise emendou: "É claro que ele (Palocci) não deixa de ter a sua responsabilidade, inclusive porque ela (Isabel) obedecia a ordens e determinações dele."

Uma possível acareação entre o ex-ministro e a ex-superintendente do Daerp não está definida ainda, mas poderá ocorrer para a confrontação de informações. Isabel não trabalha mais para o governo do Distrito Federal e poderá até ser ouvida em Ribeirão, ou em Brasília, por meio de carta precatória. O marido da ex-superintendente, Donizete Rosa, trabalha no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) como diretor-superintendente. O delegado seccional disse que Buratti, como ex-presidente do Grupo Leão Leão, presenciou algumas reuniões sobre o esquema de desvio de dinheiro público na administração municipal, até mesmo oferecendo dados desde agosto mas acrescentando alguns detalhes em fevereiro. "Ele (Buratti) era conhecedor profundo dos fatos", afirmou. Em fevereiro, o ex-secretário de Governo da prefeitura de Ribeirão Preto inocentou Isabel e culpou Palocci pelas fraudes.

O ex-ministro foi indiciado por peculato, falsidade ideológica, formação de bando ou quadrilha e lavagem de dinheiro e Valencise diz que tem testemunhos, documentos falsificados e laudos periciais que comprovam que o rombo, só em varrição de ruas em bairros jamais limpos pela Leão Leão, seria de pelo menos R$ 30 milhões, segundo a da Polícia Civil. "A própria situação demonstra a dimensão de que esses fatos não poderiam ter sido praticados por um ou outro funcionário subalterno ou por um ou outro secretário apenas", detalhou. "Há um conjunto de pessoas coordenado por alguém com poder maior para se executar todo esse esquema porque não é um crime que aconteceu durante um dia ou durante um mês, mas praticado de forma constante durante quatro anos", destacou.

O delegado evitou citar nomes, mas até oito depoimentos e indiciamentos pelos mesmos crimes atribuídos a Palocci devem ocorrer a partir de quarta-feira (03) para a conclusão da apuração até meados de maio. O sucessor de Palocci, o ex-prefeito Gilberto Maggioni (PT), o ex-chefe da Casa Civil da prefeitura Nelson Collela, além da ex-superintendente do Daerp, de Donizete (ex-secretário de Governo) e do ex-chefe da Casa Civil da prefeitura e ex-chefe de Gabinete do Ministério da Justiça Juscelino Dourado serão interrogados. Ex-diretores da Leão Leão também serão submetidos a interrogatório e indiciados. Valencise declarou ter "provas claras e cabais" sobre vários envolvidos nos crimes investigados pela polícia e Ministério Público Estadual (MPE).

Pedidos de prisão temporária ou preventiva só ocorrerão se surgirem ameaças a testemunhas, coações ou tentativas de influenciar nas provas coletadas na averiguação, segundo ele. Sobre a possibilidade de Palocci ser eleito deputado em outubro e voltar a ter foro privilegiado, não podendo ser mais investigado pela polícia, Valencise limitou-se a comentar: "Os fatos estão devidamente apurados, ele foi indiciado e a Polícia Civil está desempenhando o papel que lhe compete: apurar, coletar provas e indicar autorias."

Palocci disse, nos autos, que possui poucos bens, e isso a polícia investigará. Sobre um relatório questionando as medições do Bosque Municipal, usado pelo ex-ministro na defesa, o delegado ignorou. "No bosque, apenas se anotava a mais o que se fazia de menos; é uma gota no oceano, representa muito pouco" garantiu, destacando que as fraudes ocorriam nas varrições volantes (de ruas, nos bairros), até mesmo com emissões de ordens de serviços falsificadas.