O presidente Lula disse muitas vezes, desde que assumiu o governo, que não pode errar. Que erros poderiam ser admitidos de qualquer outro presidente, mas nunca dele, líder trabalhador que lutou nas trincheiras sindicais por décadas e durante 24 anos liderou o PT, um partido que, pela primeira vez, chegou ao poder representando os trabalhadores. Até então havíamos tido governos da burguesia, das elites, das forças armadas e, afinal, o povo teria chegado, através de Lula, ao comando da nação. Não errar é desejável, porém improvável. E essa improbabilidade se comprova com os erros que vêm agora aparecendo, evidenciando a falibilidade deste e de qualquer governo.

Essa falibilidade pode e deve ser ressaltada por uma oposição responsável, crítica, capaz de apontar os erros, indigitar os errados e mostrar que existem caminhos alternativos para o que o governo esteja fazendo sem resultados ou com resultados negativos.

Não tivemos essa oposição no primeiro ano do governo da coligação que apóia o atual presidente. A ele se atrelaram, na campanha e após ela, forças que se opunham ao governo de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Essa posição comum contra o governo passado não era nenhuma garantia de que falavam a mesma linguagem de Lula e do seu PT. Mas o poder é um poderoso ímã. Também se atrelaram grupos e partidos políticos que eram a favor de FHC e contra Lula. E foram com ele compreensivos, se não lenientes, até mesmo os correligionários de Fernando Henrique e de José Serra, candidato situacionista à Presidência, derrotado por Lula.

Quase uma unanimidade burra. Não estivemos longe dela. As pesquisas mostravam índices de aprovação elevadíssimos do governo e do próprio presidente. Qualquer coisa que fizesse ou deixasse de fazer, e qualquer coisa que dissesse, mesmo que em discursos vazios de conteúdo, porém plenos de eloqüência, eram aplaudidas. Com tantos aplausos, Lula se encantava com a própria voz e com as próprias palavras, certo de que prometer e esperar, preparando o paraíso que desejava e prognosticava para o povo brasileiro, viria em breve, mesmo que pelo caminho da inação.

Era o “milagre do desenvolvimento”, anunciado com data marcada, em meados do ano passado, e que não aconteceu. É agora o megalômano “maior programa social já visto na face da terra”, que anunciou em Belém do Pará. Os números e os fatos não sustentam tanto otimismo, tanta euforia. O PIB recuou 0,2% no primeiro ano do governo Lula, o pior resultado desde 1992, quando se deu o “impeachment” de Collor.

O País está mais pobre. A população cresceu, mas a produção de bens e serviços do Brasil diminuiu. Pouco, se considerados os décimos percentuais apontados pelo IBGE. Muito, se levado em consideração o tempo passado sem que avançássemos.

Felizmente, e afinal, surgiu uma oposição: no Congresso, de parte do PSDB e do PFL; na Igreja, através da CNBB, que advertiu que ainda não tivemos uma revolução porque há o chamado “jeitinho brasileiro”. E, por último, do próprio José Serra. Ele começou a falar, como novo presidente do PSDB. Referindo-se ao mau desempenho da economia com o recuo do PIB, disse que o País não está assistindo ao “milagre do desenvolvimento”, mas à “dança do caranguejo”. Era disso que precisava o governo. De uma sacudida, para que se mexa.