A tecnologia tem se tornado uma importante ferramenta para manter jovens no campo e garantir a continuidade das pequenas propriedades familiares que abastecem os sacolões e feiras de Curitiba. No Cinturão Verde da capital paranaense — zona de produção agrícola que contorna a cidade —, drones de pulverização podem reduzir em até 50% o tempo gasto em relação aos métodos tradicionais, segundo o engenheiro agrícola Marcelo Augusto Pedrozo, consultor dos pequenos produtores da região.
Mesmo com equipamentos que variam de R$ 80 mil a R$ 200 mil, o uso da tecnologia já é predominante em cultivos como o da ponkan, em Cerro Azul, e cresce de forma expressiva em toda a Região Metropolitana de Curitiba (RMC).
“A receptividade às novas tecnologias tem sido muito positiva entre os produtores rurais, pois despertam grande interesse por contribuírem para a redução dos custos operacionais, o aumento da produtividade e, consequentemente, a melhoria da rentabilidade das propriedades”, explica Pedrozo. Segundo ele, o maior entrave ainda é o investimento inicial, mas a tendência é de queda nos preços à medida que mais produtores adotam as ferramentas.
Quem sente esse ganho na prática é o agricultor Leandro Jovinski. Ele conta que o drone transformou o dia a dia da propriedade. “Se eu fosse pulverizar meio hectare com o pulverizador costal, eu levaria de duas a três horas para fazer o trabalho, e fazendo força. Com o drone, eu levo no máximo oito minutos para fazer esse serviço”, relata.
Para Jovinski, o ganho vai além do tempo. “Eu tenho a total certeza de que o que o produtor puder colocar em automação e tecnologia dentro da propriedade vai trazer um ganho de qualidade de vida muito grande para a família e vai fazer com que os sucessores queiram ficar.”

Cultivo protegido e ergonomia no campo
Também produtor de hortaliças e fabricante de estufas agrícolas, Vitor Favretto avalia que a inovação vai além dos drones. “As estufas agrícolas têm influenciado bastante para o pessoal ficar no campo”, afirma. Segundo ele, sistemas como a hidroponia — técnica de cultivo de plantas sem a utilização de solo — representam hoje o maior salto tecnológico da região. “Eu diria que hoje o cultivo protegido é o maior salto que existe em tecnologia na nossa região, é mais até do que o drone. Você não trabalha na chuva, tem ergonomia, trabalha em pé, com bancadas mais elevadas. Isso é qualidade de vida”, destaca.
Esse movimento de modernização no campo tem reflexo direto nos números que chegam à Central de Abastecimento do Paraná (Ceasa). De acordo com o engenheiro agrônomo Felipe Nascimento dos Santos, da Ceasa Paraná, a unidade de Curitiba — que reúne o atacado e o Mercado do Produtor — movimentou 1,4 milhão de toneladas de hortifrúti, sendo 283 mil toneladas provenientes apenas do Mercado do Produtor, canal direto onde grande parte dos pequenos produtores do Cinturão Verde comercializa a produção.

O olhar da formação acadêmica para adaptação dos agricultores
Para o Centro Universitário Integrado, referência em agronomia do Sul do país, o desafio para levar inovação à agricultura familiar não é tecnológico, mas de adaptação. “O pequeno produtor não precisa, necessariamente, de equipamentos de alto valor. Ele precisa de soluções que gerem retorno financeiro, sejam simples de utilizar e resolvam problemas concretos”, afirma Fabrício Pelloso Piurcosky, Head de Inovação do Grupo Integrado, de Campo Mourão (PR).
Ele aponta que, entre as tendências de baixo custo com maior potencial para pequenas propriedades, estão aplicativos de gestão financeira, plataformas de monitoramento por satélite, sensores de irrigação inteligente e estações meteorológicas acessíveis.
Na avaliação de Marcelo Pedrozo, o processo de sucessão familiar no campo tem se intensificado nos últimos anos, à medida que a nova geração de produtores passa a enxergar a propriedade com uma visão mais empresarial. “O uso de tecnologias permite elevar a produtividade sem a necessidade de ampliar a área cultivada”, explica.
Ferramentas como hidroponia, irrigação automatizada e aplicativos de gestão que substituem os antigos cadernos de anotações, permitem decisões mais rápidas e precisas — da previsão do tempo ao acionamento remoto de sistemas de irrigação em períodos de estiagem.
Apesar dos avanços, os desafios seguem presentes na rotina do produtor rural. Escassez de mão de obra qualificada, dificuldades na comercialização e a equalização dos preços agrícolas continuam sendo obstáculos, além da exposição constante às variações climáticas. Ainda assim, o consenso entre produtores e especialistas é de que a tecnologia, aliada à especialização dos jovens, é o caminho para manter viva a agricultura familiar que sustenta a mesa do curitibano.
