Segurança pública

Além dos números: o que explica a sensação de insegurança no Centro de Curitiba

A imagem mostra motos e viaturas da Polícia Militar e da Guarda Municipal em rua do centro de Curitiba.
Operação integrada da Guarda Municipal e da Polícia Militar no Centro de Curitiba em agosto deste ano. Foto: Isabella Mayer/Secom.

Criado para reforçar o combate à criminalidade na região central de Curitiba, o 33º Batalhão da Polícia Militar (33º BPM) completou um ano no mês de julho em meio a ações de revitalização do programa Curitiba de Volta ao Centro, da Prefeitura, e à persistência da sensação de insegurança entre quem habita ou frequenta o bairro. Entre as queixas, destacam-se furtos, ocorrências relacionadas ao uso e tráfico de drogas e o aumento da população em situação de rua.

A unidade da PM tem como área de atuação Centro, Centro Cívico, São Francisco e Alto da Glória. O setor tem cerca de 52 mil moradores, mas uma população flutuante de até um milhão de pessoas por dia, entre circulação e atividades de trabalho, estudo, lazer e comércio. 

Segundo o comandante do 33º BPM, tenente-coronel Ronaldo Carlos Goulart, pelo menos 80% dos chamados estão relacionados a ocorrências no Centro, e grande parte ao comércio ou seus consumidores. Os três maiores desafios do batalhão, afirma, são o grande número de furtos, o “microtráfico” de drogas e queixas de comerciantes sobre a presença de pessoas em situação de rua. 

Comparando os meses de maio a agosto de 2024 com o mesmo período de 2026, No tocante à atuação policial, a equipe passou de 64 para 92 mandados de prisão cumpridos; de 65 para 72 encaminhamentos por tráfico de drogas; e de 208 para 228 prisões realizadas.

O batalhão registrou redução de 41% nos roubos em geral no bairro — de 465 ocorrências para 275 — e um aumento de 3,7% nos furtos: de 2064 para 1998 registros. A diferença entre os dois é o emprego de violência ou ameaça no roubo, categoria na qual se encontram os assaltos, por exemplo. 

Outras ocorrências violentas já tinham números absolutos pequenos e também diminuíram, com os roubos de veículos caindo de 4 para 2 e homicídios de 5 para 2. A sensação de quem vive ou trabalha na região, no entanto, não é compatível com esses indicadores. 

Após quase uma década operando um bar na rua Ébano Pereira, o cearense Antônio Silvano da Franca hoje toca ao lado da filha e do genro o Catedral Lanches, bem ao lado da basílica, próximo à Praça Tiradentes. Silvano, como é conhecido, relata que, em termos de segurança, a situação da região hoje “não tem nem comparação” com dez anos atrás.

Suas principais queixas são relacionadas ao tráfico de drogas nas redondezas. Segundo ele, a presença constante de usuários nas proximidades da lanchonete contribui para deixar potenciais clientes receosos e esvaziar o estabelecimento. “A uma hora dessas, essa casa era pra estar fervilhando de gente”, contou em entrevista realizada no início da tarde.

“Depois da pandemia acabaram os escritórios do Centro, os bancos. Antes a pessoa vinha resolver uma coisa, aproveitava e almoçava. Hoje, é difícil”, avalia sobre a diminuição da movimentação de pessoas na rua, o que, para ele, também contribui para a sensação de insegurança. 

Segurança, tranquilidade e salubridade

A presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) do Centro Cívico, Valéria Prochmann, joga luz sobre outros fatores que explicam esse cenário. Para ela, além de combater a criminalidade de forma direta, é preciso zelar pela ordem pública. 

“A ordem é um conceito mais amplo, que compreende segurança, tranquilidade e salubridade. Quando tem um ambiente sem ordem, a tendência do indivíduo é se sentir inseguro. Isso se acentua quando se trata das mulheres, porque o espaço urbano tem sido muito hostil para elas”, diz. 

Dentro desse conceito, podem ser incluídos como ameaças à ordem, ações de perturbação do sossego, como som alto em bares e carros; vias públicas mal iluminadas; imóveis abandonados; calçadas ou meio-fios quebrados e placas de sinalização vandalizadas. 

Os Consegs são formados a partir da mobilização das comunidades, com funcionamento regulado pelo Estado, e atuam em conjunto com as forças de segurança para, por exemplo, canalizar as demandas da população e propor prioridades às autoridades policiais.

“A maior parte das reclamações tem a ver com a gestão municipal, menos até do que com a polícia. A zeladoria urbana é um problema seríssimo em Curitiba”, conta Valéria sobre as demandas levadas pela comunidade às reuniões do colegiado. 

Presença estatal qualificada

Sentir medo na cidade não é algo novo e nem específico de Curitiba. Pesquisa encomendada pelo Instituto Sou da Paz e realizada pela OMA Pesquisa, divulgada em maio deste ano, mostra que 42% dos brasileiros consideram a cidade em que vivem “muito violenta”, com 94% apontando “algum grau de violência”.

A insegurança relatada diminui quanto mais próximo da sua residência e da comunidade: só 32% dizem se sentir seguros na cidade onde moram, mas esse número sobe para 47% no bairro em que residem e chega a 59% na rua de casa. 

“É importante considerar esse raciocínio na formulação de políticas públicas de segurança, compreendendo a importância da regionalização e da territorialização”, afirma Daniele Tsuchida, coordenadora de projetos do Instituto Sou da Paz.

Para ela, os dados apontam para medidas de policiamento de proximidade e presença territorial qualificada como estratégias de redução do medo. No centro de uma capital, os desafios para implementar esse tipo de política são maiores, devido à intensa circulação de pessoas e maior presença de pessoas em situação de rua e outras condições de vulnerabilidade. 

A atuação do Estado nesses casos, analisa, não pode ficar restrita à atuação policial: “A presença territorial qualificada precisa combinar segurança, assistência, saúde e outras políticas públicas. Pessoas em situação de rua que fazem uso problemático de substâncias psicoativas podem demandar acompanhamento. Isso não significa, necessariamente, que estejam envolvidas com a criminalidade. Muitas vezes, são pessoas que precisam de proteção e de uma resposta adequada do Estado”. 

Policiamento de proximidade

O conceito de policiamento de proximidade estabelece que manter uma relação próxima com a comunidade pode ajudar as forças policiais a combater crimes. O comandante do 33º BPM, tenente-coronel Goulart, relata que a unidade tem aplicado essa abordagem na região central da cidade.

A Polícia Militar mantém um grupo de WhatsApp com cerca de mil pessoas, entre membros do batalhão, comerciantes, líderes comunitários e síndicos de prédios residenciais e comerciais. Lá, os agentes responsáveis pelo patrulhamento a cada dia se apresentam no período da manhã. 

“Essas pessoas interagem diariamente com equipes da patrulha e conhecem os policiais pelos nomes. Elas trazem informações sobre o que veem de irregular, fazem solicitações de ajuda e recebem informações sobre o que o policiamento está fazendo na região”, diz. 

Segundo ele, a construção dessa relação de confiança permite que a PM tenha um termômetro do que está acontecendo nas ruas e estimula a comunidade a registrar ocorrências. O comandante cita principalmente furtos de pequenos objetos em lojas, que costumam ser ignorados pelo menor valor financeiro. 

A presidente do Conseg do Centro Cívico relata que a iniciativa foi bem percebida pela comunidade. Silvano, do Catedral Lanches, disse que faz parte do grupo e que, apesar dos problemas enfrentados no estabelecimento no dia a dia, percebe a presença das forças de segurança na região. 

“Quando ocorre uma situação de risco já é colocado ali. Se tiver imagem, colocam as imagens e a descrição da ocorrência. Isso não dispensa o acionamento do 190, mas a equipe que está na rua já começa a buscar o criminoso”, conta Valéria. 

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