Fé, trabalho e acolhimento

Recomeço dos invisíveis: comunidade recupera mais de 700 do vício e das ruas de Curitiba

Foto: Átila Alberti / Tribuna do Paraná.

Depois de passar tempo nas calçadas sob marquises em Curitiba, há quem queira largar as drogas, dar o próximo passo e tentar transformar uma noite debaixo de um teto em algo permanente. As causas e consequências da situação de rua são muitas. O vício em álcool ou em outras drogas é uma das mais comuns. É isso que alimenta o senso comum e faz o motorista recusar a doação de uma moeda no sinaleiro — ora por medo, ora por desprezo — com receio de reforçar o vício.

A maioria das pessoas em situação de rua na capital é formada por homens brancos, entre 18 e 59 anos, que já tiveram carteira assinada em algum momento da vida. O dado é de um levantamento do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), divulgado em julho. Longe do concreto e do frio das ruas, onde a abordagem social esbarra na indiferença, um grupo de homens se empenha em ficar longe das drogas e mostrar que ainda há quem deseja ser salvo e que nem tudo está perdido.

Um recanto em meio à natureza, ao lado de uma nascente, na vizinha Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba, oferece essa nova chance a dependentes químicos. Próxima à antiga Estrada da Graciosa, a entrada da Comunidade Terapêutica Perpétuo Socorro já antecipa como é o processo de recuperação e ressocialização desses homens na entrada da chácara: passo a passo.

Às 6 horas, o sino desperta os residentes da chácara, marcando o início do primeiro pilar do tratamento: a disciplina. Parte do grupo segue para os chuveiros, com cinco minutos cronometrados para o banho. Outra parte se encarrega da organização dos dormitórios. O rodízio é um exercício de cuidado com o coletivo e respeito pelo espaço do outro. Nas mesmas condições, todos se reúnem à mesa para o café da manhã.

Na visita da Tribuna, realizada na terça-feira (29), cerca de 35 homens estavam em tratamento. Já à vontade, como se estivessem em sua própria casa, os recém-chegados sentam-se à esquerda da mesa do salão conversando uns com os outros. Com a evolução no tratamento, avançam para a outra ponta, à direita, sinal da proximidade do retorno à vida na metrópole.

É à mesa que se pratica o segundo pilar: a oração. Dispostos em mesas retangulares organizadas em formato de quadrado, os residentes fortalecem sua fé e reaprendem a viver sem as drogas. De mãos dadas, antes das refeições, cada um puxa a mão esquerda em direção ao próprio corpo. Rezam em uníssono:

“Eu seguro minha mão na sua e uno meu coração ao seu para que, juntos, possamos fazer aquilo que sozinho eu não consigo. Deus, conceda-me a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso modificar, coragem para modificar aquelas que eu posso e sabedoria para reconhecer a diferença.”

Após as refeições, os grupos se dividem novamente para colocar em prática o terceiro pilar: a laborterapia. “Toda a laborterapia é voltada ao cuidado com a instituição e ao bem comum. Valorizamos o trabalho porque é algo que todos usufruem”, explica o diretor da comunidade, o redentorista Frater Andrey Reimer.

Foto: Átila Alberti / Tribuna do Paraná.

As tarefas se dividem entre cozinha, cursos, limpeza e pequenas reformas. Com vista para a Serra do Mar, a chácara reúne espaços que acolhem e organizam a rotina de todos. Logo na entrada, ao lado da lagoa, há uma lojinha com artigos religiosos. No centro do terreno, subindo a colina, fica o refeitório; à direita, estão os dormitórios e os banheiros. Pela área periférica, é possível encontrar uma estação de tratamento de resíduos orgânicos em construção, um parque de diversões, uma biblioteca, um salão com auditório, uma panificadora, uma horta e um galinheiro.

Cada residente pode desenvolver suas habilidades, desde que colabore com a rotina. O trabalho na vida bucólica, longe da cidade, se torna um hábito. “É o nosso passatempo. É onde ocupamos a cabeça e aprendemos a nos regrar”, conta o residente João Antônio. Após as obrigações, ainda há espaço para o lazer. Ler um livro ou jogar bola também fazem parte do dia.

Ao longo de nove meses a um ano, quase todos os dias passam com o mesmo ar semelhante e familiar. Gradualmente, quem perdeu vínculos, endereço e autoestima devido ao vício, reaprende a viver e a pertencer a uma sociedade.

Pão da vida

Francisco, Cauê, Vitor, Eduardo, Guilherme, Henrique, Fernando, Flávio, Douglas e outros colegas compartilham o café da tarde e uma boa conversa sentados no entorno da mesa. Dividir o pão fortalece a fé e evoca memórias de vidas, costumes e vícios que ficaram para trás.

Além do simbolismo religioso, o pão representa recomeço. João Antônio, 36 anos, descobriu na cozinha uma nova paixão. Ele é um dos responsáveis pela produção dos pães consumidos na chácara e vendidos após as missas no Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Natural de Sapopema, cidade a 106 km de Cornélio Procópio, João veio a Curitiba em busca de emprego após perder os pais. Ao chegar na capital, a realidade que encontrou foi diferente da esperada. Durante seis meses, viveu nas ruas do bairro Centro Cívico. 

Natural do Norte do Paraná, João Antônio está em tratamento há três meses na comunidade. Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná.

Nesse período, conheceu a fome, o frio e a violência. Quando ingressou na comunidade, há três meses, ainda se recuperava de um ferimento na barriga, resultado de um episódio vivido nas ruas. “Encontrei na Perpétuo Socorro uma oportunidade de mudar de vida e renovar, não só a aparência, mas também a mente”, relata.

Recuperando o viço, com olhar de criança entusiasmada, João voltou a fazer planos para si. “Estou buscando uma vida e a sobriedade, que é o que eu preciso pra continuar depois daqui”, afirma. Entre seus planos, ele aguarda o início das aulas do curso de panificação, que será oferecido dentro da própria comunidade.

“Sempre gostei de culinária. Já até trabalhei com isso. Como Deus é maravilhoso, agora apareceu esse curso. Quero fazer e seguir nessa área, seja com lanches ou qualquer coisa que envolva cozinha. É o que almejo”, diz, animado.

Ao lado de Cleverton, Bruno e Claudinei, ex-residentes que hoje colaboram na instituição, João vê um futuro possível. Claudinei, o mais antigo, coordena a comunidade desde 2012. Natural de Londrina, viveu em situação de rua por seis anos. Sua permanência é reflexo da liderança e dedicação demonstradas durante o tratamento. Assim como ele, muitos transformam a própria história ao se tornarem multiplicadores, retribuindo a oportunidade que um dia receberam.

Longe da rua

Com mais de 700 atendimentos desde sua fundação, em 2012, a comunidade acolhe parte significativa dos recuperados da situação de rua. A instituição é mantida com fins próprios da igreja com apoio de parceiros, sem auxílio governamental, apenas com a perseverança e a solidariedade dos fiéis.

A entrada no programa costuma ocorrer por meio das ações sociais do Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Durante as abordagens nas ruas, os homens que demonstram interesse no tratamento são cadastrados para receber acolhimento na comunidade terapêutica. Outros são acolhidos e cadastrados diretamente no Santuário, quando manifestam interesse.

Segundo o relatório do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/POLOS-UFMG), até julho de 2025, Curitiba contava com 4.473 pessoas vivendo nas ruas. O uso de drogas é uma das principais causas dessa condição. De acordo com o relatório do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, divulgado em 2023, as principais causas são: problemas familiares (44%), desemprego (39%) e alcoolismo ou uso de drogas (29%).

Com 13 anos de atuação, a taxa de recuperação da comunidade é motivo de orgulho. Dos 700 atendidos nesses anos, cerca de 70% mantém a sobriedade após a reinserção na sociedade. Para o redentorista Frater Aurélio Rodrigues, isso se deve, sobretudo, ao caráter do tratamento, sempre voluntário da parte do acolhido.

Além dos acolhidos, seus familiares também são notificados e incluídos em parte do tratamento. “O projeto trata não apenas os dependentes químicos, mas também os familiares, chamados de codependentes. Eles também precisam de apoio e de suporte”, afirma Frater Andrey.

Em Curitiba, a comunidade oferece cursos para pais, filhos e cônjuges, com apoio de médicos e psicólogos. Uma vez por mês, familiares participam da Santa Missa no auditório da chácara, enquanto os planos da capela ainda estão no papel. Os residentes podem ainda trazer seus animais de estimação, que convivem com os outros animais da chácara.

Regresso

Gradualmente, os homens em tratamento retornam ao convívio em sociedade para compartilhar aquilo que aprenderam de mais valioso: o amor ao próximo. Ao lado dos voluntários do santuário, eles participam da distribuição de cestas básicas, cozinhas comunitárias e abordagens sociais.

A prática é também um exercício de reflexão sobre o próprio percurso: da vida nas ruas à construção de um novo caminho. “Nós tiramos dessa realidade [da rua], trazemos para um tratamento e colocamos a pessoa numa posição de destaque no mercado de trabalho. Nosso diferencial é o trabalho de conscientização”, explica Frater Andrey.

O reitor do Santuário, Padre Joaquim Parron, acredita que o modelo pode inspirar políticas públicas. Esse é um modelo que poderia ser adotado pelo poder público, pelo estado ou pela federação. A pessoa é trazida para cá, faz o processo e depois é reinserida na sociedade já trabalhando. É um processo global pensando na sociedade”, afirma.

Entre reencontros e memórias, Andrey relembra o dia em que um ex-residente voltou às lágrimas após uma entrega social. “Perguntei por que estava chorando. Ele respondeu: ‘Cinco meses atrás, era eu quem recebia a marmita. Hoje, eu pude entregar’”, recorda.

Apoie a causa

A manutenção da comunidade depende do trabalho dos missionários redentoristas, além de doações e parcerias voluntárias. Para apoiar a continuidade do trabalho, a Comunidade Terapêutica Perpétuo Socorro (@ctperpetuosocorro) recebe doações pelo Pix 41 99698-1246. Dúvidas ou informações sobre as atividades também podem ser enviadas para esse número pelo WhatsApp.

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